O GIRO DA SICASAL-ACRAL

Na senda do Giro, nenhum português que seja interessado pelo ciclismo, deveria esquecer os dois mais importantes momentos históricos desta competição italiana, para as nossas cores.

Da camisola rosa de Acácio da Silva, conquistada no Monte Etna, e das suas outras vitórias em etapas, já aqui se tem falado em edições anteriores da prova. Sem desvalorizar esse “nosso” grande e incomparável momento nesta competição disputada, maioritariamente, em solo italiano, devemos referir a única participação de uma equipa portuguesa em toda a história do Giro.

Em meados de 80, até meio da década de 90, nenhum português ficaria indiferente ao azul, vermelho e branco da Sicasal-Acral. A equipa começou por outras denominações alternando Torrense-Sicasal com Sicasal-Torrense, porém, não só pela maior durabilidade do nome, mas essencialmente pela sonoridade, Sicasal-Acral, fica-nos na memória. Será porventura uma das maiores marcas do ciclismo português, marca que se associou, e continua a associar-se, a equipas, à Federação (estas confusões de “parceiros oficiais” não foram inventadas agora!) e às corridas nacionais na globalidade.

Quando olhamos para imagens da Volta a Portugal de início dos anos 90, quando começaram as transmissões em directo, naturalmente na RTP, é inevitável não repararmos nos guarda-sóis da Sicasal, geometricamente dispostos nas zonas de chegada. Isto, com a geometria mais desorganizada que as zonas de meta tinham então.

Começou com plantéis mais curtos, mas sempre com ambição, nomeadamente pelo sonho de uma participação no Tour.

Rapidamente se tornou na maior equipa nacional de então. Bons salários, muito boas condições, segundo contam os ciclistas e até um centro de estágio. No panorama nacional a hegemonia era notória, mas várias vezes interrompida, por outra marca que também nos ficou no ouvido, a Recer-Boavista, com quem protagonizou grandes lutas.

Quanto ao Giro, que é o que nos traz aqui, a Sicasal participou no ano de 1995, curiosamente no ano em que pôs fim à equipa profissional. O suiço Tony Rominguer, da Mapei, foi o vencedor ao fim de 3736 Km e 22 etapas.

À semelhança do Tour de 1984, em que participou o Sporting, o Giro de 1995 também fica marcado pelo maior contingente português. Na Sicasal, Manuel Abreu, Joaquim Gomes, Carlos Pinho, Quintino Rodrigues, Serafim Vieira e Pedro Silva, a que se juntavam os estrangeiros Dariusz Bigos e Kosal Richlik (polacos) e Michael Andersson (sueco). Sim, nove ciclistas!

Dos 189 ciclistas à partida em Perugia, numa primeira etapa que foi ganha por Mario Cipollini, 122 chegaram a Milão. Da Sicasal, quatro, com Quintino Rodrigues à cabeça, no 41º lugar, a cerca de uma hora e meia do vencedor.

No contexto actual da modalidade, nacional e internacional, a presença de uma equipa portuguesa no Giro é cada vez mais difícil. Foi uma passagem única, à semelhança do Tour de 1984, com o Sporting. A Sicasal, esteve também oito vezes na Vuelta, para além de ser presença assídua, na altura, em algumas das mais importantes corridas do mundo, isto, note-se, muitas vezes a par de outras equipas portuguesas, nomeadamente, a Recer-Boavista. Enfim, outros tempos que, se pensarmos bem, nem sequer foram assim há tanto tempo.
Luís Gonçalves