REFLEXÃO SOBRE AS EQUIPAS PORTUGUESAS NA VOLTA A CASTELA E LEÃO

Entre 20 e 22 de Abril, por terras antigas da vizinha Espanha, decorre, à portuguesa, a Volta a Castela e Leão. Numa região historicamente conflituosa com Portugal, nesta competição velocipédica, com bastante tradição no país vizinho, marcam presença quatro equipas portuguesas.

Entre essas equipas, a previsível Efapel, as inevitáveis W52-FCPorto e Sporting-Tavira e a Liberty Seguros-Carglass. Nas edições imediatamente anteriores deve-se salientar que, em vez da Liberty Seguros-Carglass, esteve sempre presente a RP-Boavista.

Não se pretendendo aqui fazer a apologia da RP-Boavista, sempre se deve considerar estranha a presença da Liberty Seguros-Carglass. Numa competição já considerável nos escalões UCI, com presença de equipas Worldtour e várias continentais profissionais seria mais previsível que, em representação das cores portuguesas, estivessem verdadeiras equipas do escalão continental.

Tanto quanto sei, para além da RP-Boavista (e dos que já estão em Castela e Leão), no verdadeiro, mais trabalhoso e mais dispendioso escalão continental, existem mais duas equipas: Vito-Feirense e Aviludo-Louletano que, para os mais distraídos, até ganhou a última Volta ao Alentejo e esteve em muito bom nível na Volta ao Algarve.

Não imaginará o leitor comum, o esforço logístico e sobretudo financeiro, que é necessário para “montar” uma equipa verdadeiramente continental, comparando com aquelas que não se sabe bem o que são, mas que pretendem assumir, com benevolência, o estatuto de continentais, como sabemos, democraticamente limitadas à existência de três.

Neste contexto, é natural que os patrocinadores e todos os demais intervenientes no processo formativo e financeiro destas equipas verdadeiramente continentais queiram marcar presença neste tipo de competições. Aliás, antes de mais, para que não se diga falsamente o contrário, as equipas, demonstram interesse em lá estar.

Sempre se poderá dizer que foi uma opção da organização. Na resposta, teríamos sempre que considerar quem é parte na organização e sobre que circunstâncias se move.

Teríamos também que considerar que a Liberty Seguros (onde sou segurado!) tem sido um justo alfobre do ciclismo português, nomeadamente, parceiro da Federação Portuguesa de Ciclismo.

Teríamos também que considerar as recentes alterações regulamentares em relação a inscrição de equipas e, o benefício estatístico, para alguns, de algumas circunstâncias de corrida ao longo da época.

Teríamos que considerar que alguns diriam que é a protecção ao futuro do ciclismo português, como se as equipas verdadeiramente continentais, não tivessem jovens, algumas em bom número, e os utilizassem nas corridas. Diga-se que porventura, uma ou outra, até não terão estruturas Sub-23 associadas, porque não deixaram. Isto, apesar de pontualmente, deixarem inscrever nas provas nacionais estruturas e ciclistas de equipas, que proibiram a outras, essencialmente a estas uma ou outra que aberta e transparentemente quiseram estruturas Sub-23 associadas.

A escolha, ou imposição da escolha, desincentiva as equipas verdadeiramente continentais. E o nosso ciclismo já é pobre o suficiente para arriscarmos descer mais uns degraus.

Numa opinião puramente pessoal, mas pela justiça (apesar de custar a acreditar a alguns) julgo que, nalgumas entidades, devemos preocupar-nos mais com o ciclismo em si, do que com uma forma de política e puramente comercial. Deverá também o adepto comum, para além dos Watts, do caso do Froome, dos cavalinhos do Sagan, dos autocarros das nossas equipas ou dos sucessos nacionais tão evidenciados, mas num grupo cada vez mais restrito, tentar ver mais abertamente estas questões, pela importância que podem ter na sustentabilidade do ciclismo português.
Luís Gonçalves