GUERRAS FRIAS NA SERRA DA ESTRELA

Foto de UVP - Federação Portuguesa de Ciclismo.

Foi no inusitado frio de Abril que o pelotão português, acompanhado por algumas equipas estrangeiras, umas de reconhecido mérito, outras interessantes e outras que nem deviam de existir, se lançou na 3ª edição do Grande Prémio das Beiras e Serra da Estrela.

Nesta espécie de guerra fria, outra vez, e por más razões tanto na moda, venceram os russos. Se nas outras, as verdadeiras, não sabemos bem quem sai vencedor, nesta, da serra da Estrela, conseguimos classificar as vitórias e as derrotas em segundos. Dirão uns que os russos, venceram à boa maneira russa, usando tácticas pouco honestas. A probabilidade é grande, mas também não deixa de ser verdade que o jovem russo tem dado boa conta do recado por terras portuguesas e em várias provas.

Uma boa guerra fria parece também ter provocado o colégio de comissários. Obviamente que a forma de actuar de qualquer colégio de comissários é sempre delimitada por quem manda, o presidente.
Quanto a isto, ponto de honra, teremos que dizer que os regulamentos são naturalmente para cumprir. Porém, e não menos importante do que o cumprimento, não devemos esquecer nunca o bom senso na sua aplicação. Apesar de a grande maioria dos comissários, julgarem os regulamentos como palavra de Deus, o certo é que esta forma legal, os regulamentos, são a parte mais “mixuruca” de qualquer sistema legal.

Foto de UVP - Federação Portuguesa de Ciclismo.

Quando dez equipas são sancionadas por abastecimento ilegal, num dia em que ciclistas desistiram em hipotermia, falha claramente o bom senso, ou pelo menos, o diálogo. Num tribunal, o juiz não aplica as penas por aplicar. Ouve as pessoas, ouve as versões, avalia os factos, fala com as testemunhas, e só depois, com a maior ponderação possível, toma a decisão.

Há comissários tão obtusos na aplicação dos regulamentos que nem conseguem distinguir, por exemplo, o que são as características de uma corrida nos escalões de formação, dos da Volta a Portugal, nomeadamente na tomada de decisões puramente regulamentares, em corrida, que pouca influência têm a nível de circulação de trânsito na Volta a Portugal, por ser tendencialmente mais controlado, mas que têm uma influência brutal em qualquer corrida de um escalão de formação. Uma “barragem” até pode estar nos livros que se estudam avidamente, como estarão outras coisas ligadas com essa, como a segurança em prova, de todos os participantes. Não podemos olhar só para um sentido e dar sempre as mesmas voltas em redor do poço ou da nora.

Pode-nos levar isto à impunidade. Boas ou más, as decisões dos comissários, têm sempre uma boa dose de impunidade. A maior parte das vezes porque ninguém se quer chatear a reclamar a decisão, porventura também porque qualquer reclamação nunca seria atendida.

No contexto, não é raro pensarmos que, tantas vezes, de fora de permanentes nomeações, ficam os bons comissários. Muitos destes bons comissários têm pouco aspecto de “entendidos”, mas, no terreno, dão dez a zero aos “entendidos”. Há os que vêem tudo (até os ciclistas que param para “mijar”) e os que não vêem nada. Mais estranho é quando estes critérios coincidem na mesma prova e na mesma pessoa. Ver tudo e não ver nada! Há despropositadas ascensões meteóricas e bons profissionais que raramente vemos.

Não se quer com isto dizer que os directores e ciclistas são todos anjinhos. Sabemos que não. Muitas vezes, ambos, também não facilitam a vida aos comissários. O retrato é para a obtusidade regulamentar e, às vezes, até falta de urbanidade de alguns comissários na relação com todos os outros intervenientes de corrida.

No meio destas guerras frias também se deve dizer que as organizações das provas devem optar sempre por um papel de paz, no fundo, quase de intermediários das boas relações e do bom senso ou, no mínimo, optar pela neutralidade.
Luís Gonçalves

Créditos fotográficos : João Fonseca -UVP-FPC.

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