“O PARIS-ROUBAIX, É UMA ESTUPIDEZ!”

Depois das fortes emoções do Tour de Flandres, aproximam-se as não menos intensas vibrações do Paris-Roubaix. Apelidado de “o inferno do Norte”, dizem alguns que um Paris-Roubaix sem chuva e lama não é um Paris-Roubaix. Com sol ou chuva, ou até neve, os famosos sectores de pavê estão lá sempre. Pelo pavê, ou como agora é moda, pelas bermas, com lama ou pó, desde 1896 que esta é uma das mais duras e interessantes corridas do mundo.

Criado numa altura em que o ciclismo começava a ter a sua expansão, em finais do século XIX, a ideia inicial dos seus criadores, dois empresários da zona de Roubaix, era a de promoverem um velódromo que ambos tinham financiado, precisamente, nessa quase inóspita zona do Norte de França.

Sem todos os meios necessários para a organização da prova, surge a necessidade de se associarem ao jornal Le Vélo, que concordou, ou exigiu, que a partida fosse dada nas proximidades da sua redacção, em Paris.

É de notar que mesmo após o acordo de vontades formalizado, a prova esteve para não arrancar. A marcação do percurso foi tão dura e exigente (uns bons troços de carro mas uma boa parte já feita de bicicleta) que quase se desistia da ideia. Por nós, ainda bem que não.
Foi alemão o primeiro vencedor. Ao fim de quase 10 horas e 280 Km, Josef Fischer, após algumas quedas e até incidentes com vacas e cavalos, entrou no velódromo de Roubaix, irreconhecível pela sujidade e pelo sangue que lhe escorria de várias partes do corpo. Na hora seguinte chegaram apenas mais três ciclistas, em iguais circunstâncias.

Se alguns se recusam a ser “palhaços” neste circo como Chris Boardman, ainda assim, para os grandes ciclistas, a tentação de ganhar o Paris-Roubaix, nunca deixará de estar presente. Pelas tendências modernas da modalidade, são cada vez mais específicos os vencedores desta prova. É cada vez mais difícil encontrar um voltista que também consiga ganhar o Paris-Roubaix. Nibali, será o mais próximo.

Quando em 1981, Bernard Hinault, como se sabe múltiplo vencedor das três grandes Voltas, venceu o Paris-Roubaix, ao fim de extenuantes quilómetros pejados de quedas e até incidentes com um cão, no discurso de vitória incluiu uma célebre declaração que, porventura, resume bem o que é esta competição: “O Paris-Roubaix é uma estupidez!”.

Quem não perceber de ciclismo e olhar para o prémio que dão no pódio ao vencedor, achará isso mesmo. Mas, em boa verdade, até o “paralelo” (simbólico) de Hinault, terá inevitavelmente lugar de destaque na sua estante de troféus. Digamos que é um daqueles actos de estupidez (como poucos) que valeu e vale a pena!
Luís Gonçalves