TOUR DE FLANDRES, A ESSÊNCIA DO CICLISMO

Peter Sagan wins 2016 Tour of Flanders

Quando hoje olhamos para os muros do Tour de Flandres, com as suas inclinações extremas e empedrado, ou para algumas estradas estreitas também com piso irregular, apesar de, nos tempos modernos, considerarmos isso uma pequena aventura, estamos bem longe de imaginar o que terá sido a primeira edição desta competição.

Em 1913, completaram-se 330 km, por aquilo a que definitivamente não podemos chamar sequer estradas. Alguns muros já lá estavam, provavelmente com empedrado em pior estado, mas com a inclinação de sempre. Foram 37 os ciclistas que alinharam na iniciativa, para não variar, apadrinhada pelo director de um jornal local. Constavam cinco carros de apoio, para mais de doze horas de corrida, embora se considerasse, por regulamento, que cada corredor teria que resolver todos os seus problemas sozinho, nomeadamente mecânicos. Cada pneu pesava mais de meio quilo. O natural da região, Paul Deman, foi o primeiro grande herói da Flandres, no ciclismo.

Com o mesmo esforço de sempre, embora com pneus bem mais leves, e sem os levar às costas, em 2017, também foi um belga que venceu, Phillipe Gilbert, ao fim de 260 km e com um tempo bem diferente do de Deman, somando 6h23. Um pelotão com 25 equipas e 199 ciclistas, com carros de apoio, quase, incontáveis, tantos que de vez em quando deitam ciclistas por terra como em 2015, aquele célebre carro de apoio neutro que tombou Jesse Sergent, e mais para a frente na corrida bateu na traseira do carro da FDJ, que tentava prestar assistência a Sébastien Chavanel.

2017 Tour of Flanders

Em mais de cem anos as diferenças são notáveis. Diremos que nesta e em todas as corridas. Só o sacrifício do ciclista é transversal. Embora se discutam actualmente algumas questões, como o excesso de veículos na caravana, naturalmente não podemos deixar de considerar os avanços positivo.

No contexto, positivo, sempre foi o público belga. Os primeiros organizadores sempre souberam aproveitar bem algum espírito nacionalista flamengo, dando-lhes a corrida como uma bandeira da região e o esforço dos ciclistas como símbolo de tenacidade e resistência. Hoje, o público é mais global e massificado, mas não deixa de estar presente o espírito regional, uma forma de vida que os flamengos têm orgulho e hipótese de mostrar ao mundo e que inevitavelmente envolve o ciclismo com fervorosa paixão. Tal paixão que nem a segunda guerra mundial parou a prova!

Podem mudar alguns números, mas o essencial é o mesmo. Numa simbiose perfeita entre percurso e tipo de corrida, história e apoio popular, mais do que perceber de Watts, quem não souber o que significa o Tour de Flandres, a par de outras poucas corridas, nunca saberá o que é o ciclismo.
Luís Gonçalves