APONTAMENTOS DA VOLTA AO ALENTEJO

A 36ª edição da “Alentejana”, corrida sob duras condições climatéricas, foi marcada por vários dilúvios, de água, e de classificações. Logo a primeira etapa brindou-nos com um dia anormal, de chuva e vento forte, que ajudaram a que tivéssemos diferenças de tempo dignas de qualquer etapa de montanha do Tour.
Apesar dos rigores do tempo e da razia na classificação geral que nos faziam temer uma corrida desinteressante logo ao primeiro dia, certo é que esta Volta ao Alentejo, acabou por ser das mais interessantes dos últimos anos.

Luís Mendonça, da Aviludo-Louletano, acabou com um jejum português de onze anos, que se estendia desde a vitória de Sérgio Ribeiro, em 2006. Apesar da forma que o ciclista vem demonstrando, bem como a restante equipa que teve já boas prestações, nomeadamente, na Volta ao Algarve, tendo em conta o perfil desta Volta ao Alentejo, não deixa de ser uma vitória que se poderá dizer algo inesperada.

A chuva marcou presença na alentejana.

Não se tira o mérito ao ciclista. Esteve na frente logo na primeira etapa, quando muitos outros baquearam, sprintou em etapas, o que já considerávamos normal, ultrapassou montanhas, curtas, mas muito duras, não se deixando intimidar pelos perseguidores mais directos, e chegou à liderança num contrarrelógio pouco extenso, mas rijo, em que arriscou tudo na descida, perigosa, com chuva, frio e algum nevoeiro. Teve o seu prémio na consagração em Évora, e os olhares do ciclismo mais atentos às suas prestações.

Edgar Pinto, o vencedor da etapa mais dura da prova.

Boas diferenças de tempo provocou também a etapa que terminou em Portalegre com a vitória de Edgar Pinto (Vito-Feirense). Em “apenas” cerca de 65 km encontramos ciclistas a mais de 15 minutos. O desenho da etapa ajudou. Não era extensa, mas o carrocel da serra de São Mamede, com os seus “muros”, deram a dificuldade necessária, demonstrando que mesmo uma etapa curta pode ter muitas histórias para contar, por vezes, bem mais interessantes do que assistirmos a mais de 200 km de montanha, como tantas vezes acontece no Giro, por exemplo.

Esta Volta ao Alentejo, deu-nos também, para este ano, a real diferença existente entre as equipas nacionais, isto comparando as profissionais, com as de Sub-23. Podemos dizer que são diferenças normais, sobretudo avaliadas à nossa escala. Não se pode é deixar de reparar que os atletas Sub-23, das equipas forasteiras, têm um arcaboiço (não só físico) diferente. Em abono da verdade, também estão inseridos em estruturas, tão ou mais profissionais do que as nossas equipas continentais e, apesar de jovens, alguns deles têm já um volume de corridas notável sobretudo por essa Europa fora, facto que se nota bem na altura de definir, nomeadamente, a colocação no pelotão, sobretudo nas chegadas. Ficam-nos alguns nomes britânicos, belgas, russos, franceses, provavelmente, para o futuro e talvez uma visão sobre Portugal de que não devemos andar no limbo e definir bem o que se pretende para o futuro do ciclismo português.

Em sentido contrário ao das equipas estrangeiras cheias de juventude, também teremos que assinalar as prestações modestas da Burgos-BH. Não era a principal estrutura, mas esperava-se mais.
Mudando de assunto, não foram muitos os jornalistas presentes. Talvez os mais habituais, uns quase por simples amor pela modalidade, as normais rádios locais e, deixem-me discriminar, o Káka. Quer se goste ou não do seu estilo, o certo é que o homem está em todas, da formação ao profissionalismo. O carro que conduz é uma manta de retalhos de autocolantes, mas é sem dúvida uma das vozes que faz ecoar o ciclismo português.

Palavras finais para a organização. Não pela organização em si que, como sempre, deu dignidade à prova. Embora algumas chegadas fossem um pouco perigosas, seriam condicionantes normais para qualquer organização. Mais destaque se dá ao site oficial da prova. Apesar do amigo Teixeira Correia referir isso com alguma insistência através do seu microfone, continua a ser estranho termos que escrever Volta a Portugal, para sermos redirecionados para a Volta ao Alentejo (ambas organizações da Pódium).

Mais estranho é não termos a lista de inscritos disponível, sobretudo, no dia anterior ao início da prova. Os filmes das etapas eram minimalistas demais, bem diferentes, por exemplo, do que tivemos na Volta ao Algarve. Não são hiatos de uma hora, que fazem as pessoas interessar-se por um filme de etapa. As classificações eram disponibilizadas, com algum exagero nosso, quase no dia seguinte.

Embora algumas das situações fossem bem colmatadas pelo site de Federação, não devemos esquecer que, nos sites internacionais que fazem referência à prova, invariavelmente se remete para o site oficial da prova.

Foi mais uma Alentejana, em que regressaram as vitórias portuguesas, e se repetiram triunfos do Louletano, depois de em 1988 e 1989, Joaquim Gomes e Fernando Carvalho terem alcançado o sucesso em representação do clube algarvio.
Luís Gonçalves

Créditos fotográficos – PODIUM – PAULO MARIA