UM ALENTEJO DIFERENTE

A Volta ao Alentejo está prestes a atraiçoar a tradicional pacatez das localidades alentejanas. Ano após ano, há quase quarenta anos, esta competição velocipédica consagra-se como o principal pólo desportivo de todo o Alentejo.

Sem desprezar a importância da Baja de Portalegre, por exemplo, o facto é que a cobertura territorial da Volta ao Alentejo é bem maior, percorrendo uma área que abarca toda a região, sendo um evento importante para a economia local, de Norte a Sul, do litoral ao interior.

Não terá a Volta ao Alentejo, por várias razões, as grandes massas populares da Volta ao Algarve ou da Volta a Portugal, mas tem sempre o grande carinho dos alentejanos (e não só). A real importância do ciclismo mede-se na rua, fora de qualquer estatística, num desporto verdadeiramente popular, uma festa de cores, que chega saudavelmente a todo o lado e a todas as idades sem grandes constrangimentos. Não é qualquer desporto que põe o FCPorto e o Sporting a partilhar hotel, os mesmos espaços, sem que ninguém ache isso anormal. O público reconhece isso. Sobretudo este público tantas vezes distante de tudo, muitas vezes duramente abandonado à sua sorte, nas mais variadas facetas da vida.

Para esta 36ª edição da Volta ao Alentejo, Carlos Barbero, tirou-nos algum suspense. Privou-nos daquela parangona que sempre se fazia sobre quem iria furar a tendência de se manter um vencedor por edição. O espanhol, acabou por nos tirar um pequeno rebuçado com a sua vitória no ano passado, quebrando uma tradição com 34 anos.
Numa verdadeira volta a toda uma região, a principal novidade este ano será um dia dividido em duas etapas, com o regresso, durante a tarde, do contrarrelógio, ausente há nove anos. Não é um contrarrelógio que se possa dizer tradicional, como se correram outros (mais recentes) em Beja ou no Redondo, mais extensos, e com um perfil mais convencional. É curto, duro e bastante técnico. Mas não será por isso, porventura bem pelo contrário, que deixará de ser uma marca distintiva desta edição.

As etapas divididas em sectores, ou os dias divididos em etapas, são uma longínqua tradição do ciclismo. É um dia diferente para as equipas e ciclistas, mais trabalhoso, que foge um pouco à rotina habitual, mas, porque normalmente concentrado numa determinada zona, para o espectador, será o dia mais interessante.

Castelo de Vide, surge mais uma vez como um pólo aglutinador desta Volta ao Alentejo, do ciclismo em geral, certamente numa confluência de interesses rentável para todas as partes envolvidas, numa sempre bem vinda agitação popular e de mercado.

Das praias alentejanas, às serras, num horizonte ondulado por vezes cortado abruptamente por uma qualquer localidade de paredes estreitas e ruas sinuosas, muitas vezes sujeito ao vento, um pelotão bem composto, prepara-se para a 36ª edição da “Alentejana”, evento que durante cinco dias nos dá a todos um Alentejo diferente.
Luís Gonçalves