AS PÁGINAS DOS JORNAIS

No Domingo passado, provavelmente porque ainda sou crente e acima de tudo porque ainda me agrada folhear um jornal, comprei dois dos diários desportivos deste país. Em tempos compraria três, mas já há muitos anos que deixei de comprar um (o Record) por causa de um péssimo artigo de opinião, sobre o pós Volta a França, em que o José Azevedo foi o dorsal nº1. Era mau e de clara má-fé para com o ciclista e o ciclismo.

Então, no Domingo passado, dia seguinte ao quarto lugar do Ivo Oliveira em Omnium, um dos jornais numa edição de 64 páginas anunciada na capa, deu-me algumas esperanças, inclusivé, no lançamento da Clássica da Primavera. Embora costume folhear os jornais de trás para a frente (e parar a meio), desta feita, folheei no sentido convencional.

Até à página 10, relatos de um jogo, com casos e casualidades. Página 11, outro jogo, que porventura até mereceria mais de uma página. Página 12 e 13, mais um jogo. Página 14 à 21, esmiuçar de um jogo que já fazia parte do passado, e que ocupou centenas de páginas durante toda a semana. Lançar o nome de um atleta para potenciar as contas bancárias do seu agente (verdadeiro serviço público jornalístico) seguido de algumas páginas repletas de poetas do futebol. Já meio perdido, encontrei a página 34, seguida da 35, com algumas “fofocas” e mulheres bem boas, em biquini, certamente para nos fazerem lembrar as actividades desportivas de Verão. Não vejo outra evidência num jornal desportivo.

Mais umas noticias de fim de redacção e a minha ansiedade crescia. Pura desilusão. À página 40, antevisão de mais um jogo e de mais outros jogos da primeira divisão de futebol até à página 45. Na página 46, começa o degredo da segunda liga. Na 49, porque a segunda liga, parece ter poucos clubes, uma folha dedicada a diversos, para variar, futebol.

Já na página 50, isso, futebol, com os campeonatos de Juniores, seguido de mais uma modalidade sob a alçada da FPF, o futsal.
Chegados à página 52, apregoa-se, o internacional. Lá está, futebol em Inglaterra, futebol em Espanha, futebol em França, futebol em Itália e até na China.

Finalmente, não fosse a página 55, e quase se esqueciam que o Nélson Évora tinha ganho uma medalha de bronze. Depois Andebol, mas com o Benfica como título, e na página do lado, Hóquei em Patins, mas com o FCPorto na parangona. Lá vem o Voleibol do Benfica, o Basquete do Benfica e num cantinho da página 59, de 64, o Ivo Oliveira, e no mesmo cantinho mas a precisar de lupa, uma espécie de texto sobre a Clássica da Primavera.

Página 60, mais um poeta, página 61, versa sobre sexo (mesmo…), página 62, programação com destaque para o futebol, página 63, mais excitações, culminando na página 64, onde o mais interessante são os números do euromilhões!

Em 64 páginas, cinco, depreciativamente dedicadas às modalidades, porque o futebol não é uma modalidade desportiva.

Quanto ao ciclismo, nesta edição (porque, em boa verdade, até nem é das modalidades com mais queixas), um pequeníssimo destaque, sobre uma honrosa participação em campeonatos do mundo de pista. Campeonatos do Mundo…

Mas desproporcionalmente se anuncia noutro dia que Wiggins e a Sky venceram o Tour, em 2012, dopados, numa cópia de notícia fundada em sempre suspeitos relatórios políticos provenientes de um departamento com nome de drogaria.

É cada vez mais perceptível quem manda na imprensa portuguesa e de que vil forma. Os jornalistas não são! Cada vez tenho menos vontade de comprar jornais. E já nem as “meninas do pódio” ou o espumante da vitória que costumava “chover” no meio das “palminhas”, me poderão compensar estas amarguras.
Luís Gonçalves

2 comentários a “AS PÁGINAS DOS JORNAIS”

  1. No ultimo fim de semana decorreu a Clássica da Primavera, a bem dizer a abertura da época ciclística a sério em Portugal. Alguém conseguiu ver em algum jornal a classificação final para além dos dez primeiros?… Pelo menos eu não consegui (e procurei em vários…), mas na verdade, se nem o site oficial da FPC a informa, que força temos para criticar a omissão aos jornais?…

  2. Meu caro,

    Poderia explicar-lhe, e até seria um prazer, a razão de os jornais desportivos serem assim.
    Mas por acaso é você que o explica, logo no primeiro parágrafo: habitualmente, você não os lê; e eles são feitos para quem os lê.

    Dispenso o argumento habitual sobre o “afastamento dos leitores de modalidades” que não o futebol e até o de os jornalistas não fazerem os jornais como gostariam.
    Realmente os jornalistas gostariam de fazer diferente – todo o jornalista acha que a sua notícia é a mais importante do dia e se não pensar assim está na profissão errada -, mas as coisas são o que são e a triste realidade é que os jornais ainda dedicam às modalidades um espaço percentualmente superior ao número de leitores que elas têm.

    Ou você acha que, existindo números a darem os leitores de ciclismo como sendo 0,003% do total, é possível reclamar mais espaço do que o existente?
    Ou você acha que, sendo vulgar no ciclismo opiniões como as deste blogue, que apela periodicamente à não leitura de jornais, isso ajuda a aumentar o destaque da modalidade?

    Afinal, dei umas explicações. E só lamento que não leia jornais mais vezes (nem contribua para a sua leitura). Nesse que teve o trabalho de descrever encontraria, na edição de terça-feira, a entrevista de página em que o Ivo Oliveira fala sobre o seu futuro na pista. Entre outras coisas…

    Carlos Flórido

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