REPENSAR AS ESTRUTURAS WORLDTOUR

As estruturas das principais equipas mundiais são cada vez mais imponentes. Nalguns casos, embora nos agrade aos olhos e dê uma imagem megalómana e de saúde do ciclismo, perguntamo-nos de facto, para quê tanta coisa e tanta gente.

Olhando para a Astana, que atravessa períodos de dificuldade financeira, tem trinta ciclistas e, no staff, que pode envolver directores, mecânicos, médicos, nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas, psicólogos, condutores, massagistas, directores de marketing, contabilistas, secretários, ou até um chef particular, somamos 51 elementos, dos quais, onze, são, apenas, massagistas.

Digo apenas, porque um massagista numa destas equipas é mesmo só massagista. Não é o “bombeiro” português que faz tudo e, ainda, é massagista.

Em proporção ciclistas/staff os números da Ettix são mais divergentes, contando em 2018 com 27 ciclistas e 59 elementos do staff.

Na Sky, os mesmos 30 ciclistas da Astana, mas, 68 elementos do tal staff que, neste caso, pode incluir mecânico particular para as viaturas motorizadas.

Quando acrescentamos os autocarros, três, no mínimo, camiões, auto caravanas, motas, carrinhas, carros (que tanto podem servir para os ciclistas ou staff, como têm carros próprios só para transportarem convidados vip), não admira que algumas destas equipas, sobretudo a Sky, ocupem, só eles, um hotel inteiro.

Com financiamentos de milhões, mas milhões que se vêm a revelar débeis, porque são muito de ocasião e pouco de continuidade, todas estas estruturas têm em comum a figura do manager. O manager, pode ter uma existência diferente. Há verdadeiros managers, que se preocupam com os ciclistas, contratações, treino, táctica e a logística da equipa e depois há os outros que são ou investidores ou angariadores. Estes últimos são extraordinariamente voláteis. Tanto aparecem e injectam milhões, como desaparecem e deixam toda a estrutura no desemprego e um buraco no ciclismo. O fenómeno não é exclusivo do ciclismo, mas, para além de desvirtuar a competição, traz poucas certezas a quem anda no meio acabando por ser lesivo da sua imagem.

Quanto à constituição das equipas, sobretudo tendo em conta o número de ciclistas, sempre foi divergente. Se na primeira vitória no Tour, em 1999, a USPostal contava (na época) com 16 ciclistas, um director desportivo e um adjunto, em 2005, eram já 28 ciclistas, um director desportivo e três adjuntos. Curiosamente, processo inverso, sofreram as equipas de Eddy Merckx. Em 1969, a Faema, contava com 27 ciclistas, e em 1974, já como Molteni, embora a estrutura fosse a mesma, tinha 18 ciclistas. Mas aqui, naturalmente que em ambos os casos, as estruturas logísticas foram sempre crescentes.

Pode-se dizer que não existe propriamente uma fórmula para ter uma equipa vencedora. Como em tudo, dependerá muito da época em que cada uma exerce a sua actividade. É certo que as equipas de topo de hoje, têm de se desdobrar, em competições simultâneas, nalguns casos, em continentes diferentes. Neste contexto, o ciclismo actual nunca permitiria uma estrutura como a de Molteni em 1974, ou mesmo como a da USPostal em 1999.

Será um pouco uma causa efeito, mas provavelmente seria razoável que tanto de um lado, a UCI, como do outro, as equipas, ou até as organizações (lembre-se a possível tumultuosa partida do Giro 2018) se começasse a pensar seriamente sobre os limites que não devem ser ultrapassados.

Não sendo necessário ir muito longe, dentro do desporto, a FIA (Federação Internacional do Automóvel) impôs medidas na Fórmula 1, e no campeonato do mundo de ralis, que permitissem às equipas logísticas mais fáceis e acessíveis, nomeadamente em termos de calendário e do decurso das próprias competições em si, sob pena de qualquer dia não existirem equipas ao mais alto nível.

Sem ser preciso cair no minimalismo português, apenas bem compensado pela nossa boa-vontade e invenção natural, também não será preciso cair no exagero de uma só equipa Worldtour, com as suas viaturas, provocar quase um congestionamento de tráfego numa auto-estrada…
Luís Gonçalves