AS RAÍZES DA VOLTA AO ALGARVE

Se é certo que a primeira verdadeira Volta a Portugal foi em 1927, vencendo Augusto de Carvalho, do Carcavelos, ou que a primeira Volta ao Alentejo foi em 1983, com a vitória de Paulo Ferreira, um dos poucos portugueses com vitórias em etapas do Tour (em representação do Sporting), a Volta ao Algarve, a competição que vai centrando as nossas maiores atenções, tem um calendário alternativo.

Oficialmente, é considerada a primeira edição da Volta ao Algarve em 1960, com José Manuel Marques a garantir o sucesso na classificação geral. Esta vitória na Volta ao Algarve surge também em ano de consagração na Volta ao Estado de São Paulo (Brasil), ano em que o ciclista ribatejano, representava um histórico do ciclismo português, o Águias de Alpiarça, equipa onde também pontuavam, Lima Fernandes, Francisco Valada e António Pisco.

É deste último que conta também a vitória de 1961, no Algarve, ainda em representação da equipa de Alpiarça. Depois de um interregno, que pelo meio tem uma edição não reconhecida em 1963, vem de facto, e sem mais interrupções, a primeira das três vitórias de Belmiro Silva, alcançada em 1977, sendo a edição deste ano considerada a terceira, depois do reconhecimento das de 1960 e 1961.

No entanto, já antes de 1960, se tinha assistido ao que se convencionou chamar de Volta ao Algarve. Não conta a edição de 1936, a que se seguiram poucas mais, como uma versão oficial da prova. Quando hoje nos preparamos para a 44ª edição da Volta ao Algarve, não contabilizamos, nomeadamente, a edição de 1936.

Mas, por mero interesse, assinale-se que em anos dominados pelo duelo Nicolau/Trindade, que deixaram neste período histórico pouco espaço para outros, foi Joaquim Fernandes, do Sporting, o primeiro vencedor daquilo a que podemos chamar uma Volta ao Algarve. Ildefonso Rodrigues foi terceiro e Cabrita Mealha segundo classificado.

Eram também os primeiros grandes passos da Volta a Portugal como grande fenómeno desportivo e social do país que, como hoje, ofusca um pouco o que se passa noutras competições. A par dos campeonatos nacionais, a dinâmica popular de Nicolau e Trindade, ou do Faísca (José Albuquerque), já beneficiava disso. Neste contexto, também se deve dizer que Joaquim Fernandes venceu a Volta a Portugal 1939, aqui, já em representação da CUF.

Joaquim Fernandes, não é considerado o primeiro vencedor oficial da Volta ao Algarve. Como já foi dito tal crédito cabe a José Manuel Marques, 24 anos depois. Mas, mais do que nomear ciclistas, seria necessário retratar que as raízes do que é hoje a Volta ao Algarve, estão já bem longe no tempo. Já em 1936, poucos anos depois da primeira edição da Volta a Portugal, certamente que um bom punhado de algarvios, antes de qualquer outra região mais distante de Lisboa, ou do Porto, quis “montar” uma grande competição de bicicletas, naturalmente alicerçada em outras que já existiam pelos Algarves e de certeza já com uma visível paixão pela modalidade.

Não imaginariam esses homens o ciclismo de hoje, e o que é hoje o seu projecto inicial, sobretudo a dimensão internacional que foi ganhando nos últimos anos, essencialmente à custa de outros pares algarvios.

Também é difícil para nós imaginar o que seria aquela Volta ao Algarve de 1936. Fica contudo o sincero agradecimento para quem a inventou e, para quem anos mais tarde, a reinventou, bem aproveitando o que começou a ser o Algarve que hoje conhecemos.

Com verdade se pode dizer que a principal raiz da Volta ao Algarve, são os algarvios, e o seu conhecido gosto pelo ciclismo.
Luís Gonçalves