DAVID LAPPARTIENT, O POLÍTICO

Será cada vez mais evidente descortinar qual foi o segredo do sucesso da vitória de David Lappartient nas últimas eleições da UCI. Relembre-se que o francês foi protagonista de uma reviravolta, algo inesperada, já bem próximo do acto eleitoral. Quando tudo indicava que Cookson permaneceria no cargo, surge um resultado que, para além de dar a vitória ao francês, foi tudo menos disputado, sendo estranhamente retumbante a vitória de Lappartient.

Recentemente, Lappartient, numa das muitas declarações que tem prestado, disse ter sabido do caso Froome, uma hora depois da eleição. David Lappartient é, antes de mais, político. Presidente da Câmara de uma localidade francesa, membro de uma série de conselhos consultivos regionais e nacionais, tem feito toda a sua vida no meio, tendo o perfil típico de quem tem algumas ambições políticas superiores às actuais.

Para além disso, ou por causa disso também, a sua ascensão no ciclismo tem sido quase meteórica. De dirigente regional, à Federação Francesa, da UEC, à UCI, passaram relativamente poucos anos. O ciclismo, sobretudo em França, é uma modalidade com imensa visibilidade. As personalidades políticas, e não só, que passam pelo Tour, por exemplo, dão uma mão cheia de visibilidade.
Quando Lappartient foi eleito, daquela forma, aqui escrevi que restaria ficar a saber a quem teria ele ficado a dever os favores da eleição. A sua ala “politica” dentro da UCI é cada vez mais evidente. As declarações que tem tido e a forma como as transmite ao público demonstram bem ao que veio, servindo muitas vezes de mero relações públicas. Dá a ideia daqueles presidentes de futebol, que defendem a verdade desportiva, quando no fundo o que querem é mudar o rumo da verdade desportiva, tornando-a a seu favor, e do seu clube, continuando a mentira da verdade desportiva.

No meio disto tudo, num acto de pura especulação, podemos perguntar se Lappartient soube apenas do caso Froome uma hora depois da eleição. Por defeito profissional próprio, tenho lidado com políticos com alguma frequência. Não conheço nenhum que não dissesse o mesmo…

Lappartient já fez uma condenação pública de Froome, num acto político à revelia de todas as normas legais. Se Froome tiver de ser condenado, que o seja pelas instituições próprias. Apesar disso, condicionando o futuro, o presidente da UCI, já quase avançou com a decisão final, do orgão que comanda, de certeza sem perceber patavina, nem de direito, nem de medicina.

É óbvio que lhe têm dito ao ouvido o que ele tem que dizer. E, ainda por cima agora, aparece a organização do Tour de Flandres, para os afrontar… Não quero parecer fatalista, mas os próximos tempos avizinham-se rijos no ciclismo. Uma luta permanente por equilíbrios de forças, cada uma, com a sua verdade desportiva.
Luís Gonçalves