FALAR DE LANCE ARMSTRONG, SEM COMPLEXOS!

À boa maneira australiana, foi sem complexos, que o actual organizador do Tour Down Under, assumiu que o principal impulso mediático que a prova teve, surgiu com a presença de Armstrong, coincidindo com o início do seu regresso à modalidade, em 2009.

Para tal indicou dados estatísticos, relacionados com público, patrocinadores e interesse geral na prova à escala global, que se demonstram crescentes desde então, considerando-se de forma avassaladora. Na antevisão da prova deste ano, o próprio ministro do desporto, sem os mesmos complexos, foi ainda mais longe, afirmando que “Armstrong colocou a prova no mapa”.

Para muitos, as declarações serão completamente despropositadas. Para muitos outros, nem tanto. O certo é que quando se fala de Armstrong, o mundo velocipédico divide-se. Mas, gradualmente, como é previsível, está cada vez menos dividido. Está claro que Armstrong não é flor que se cheire. Mas não era o único. Aliás todo o “império” que foi criado à sua volta onde, para além do próprio, muita gente e muitas empresas ganharam milhões, sabendo perfeitamente como era Armstrong, comprovam-no.

A partir de determinada altura, mais do que um ciclista, Armstrong, a sua marca, era, e porventura continua a ser, uma verdadeira empresa, que distribui lucros a muita gente. Curiosamente, ou não, gente que foi a primeira a enxovalhá-lo e a demarcar-se da sua imagem, nalguns casos, a accioná-lo judicialmente.

Em todo este caminho, e com uma personalidade forte, naturalmente se fazem inimigos, muitos inimigos. No desporto e na vida. Muitas vezes, também se procuram. O processo contra Armstrong, que correu pelas mãos da USADA, nos EUA, seria impensável na Europa. Os padrões da justiça americana são completamente diferentes dos nossos. Os americanos são muito mais permissivos da intromissão na vida pessoal e validam, quase, qualquer tipo de prova. Mas, no fundo, Armstrong, foi bem punido.
Pena é que pelo caminho, tenha servido um pouco de bode expiatório de tudo o que se passava. Neste contexto, podemos concordar ou não, admirar ou não, mas, apesar de várias vezes assediado pela justiça americana, em troca de benefícios na pena facilmente alcançáveis, nunca denunciou nenhum colega de equipa, nem sequer nenhum adversário. Negou sempre, e bem, a existência de um esquema altamente elaborado, o maior de sempre no desporto mundial. Pura mentira da imprensa, ávida de se vingar das muitas maldades que Armstrong lhe fez. Todos sabemos que o sistema de Armstrong e da USPostal, não tinha nada de especial, nada que não existisse em tantas outras modalidades, com tantas outras figuras.

Apesar de tudo, falar abertamente de Armstrong, sem ser só para dizer mal, continua a ser um problema. Os latinos, não são os australianos. Para nós, independentemente de todos os (muitos) erros do homem, reconhecer o mérito que Armstrong teve na construção da actual Volta ao Algarve, por exemplo, é quase tabu.
Não só para nós. É ainda difícil para o ciclismo mundial, reconhecer que Armstrong marcou uma era, que de certa maneira, para o melhor e para o pior revolucionou o ciclismo. Enquadrado num determinado tempo favorável, o impulso mediático de Pantani e sobretudo de Armstrong, lançou o ciclismo para uma nova era. A de uma modalidade a definhar, para uma modalidade moderna e rentável. Isto, para além de a tornar uma modalidade mais controlada, aparentemente com mais verdade desportiva.

E, embora bem custe a alguns que vaticinaram o seu fim, é notório o interesse no ciclismo americano e a sua extraordinária expansão, mesmo na era pós-Armstrong.

No meio disto tudo, o próprio Armstrong, fala com cada vez menos complexos de si próprio. Passou, nomeadamente, de um estado de negação do seu regresso em 2009, para o de assumir que voltaria a fazer o mesmo, considerando que é um episódio que faz parte da sua vida. A expiação dos seus pecados parece dar-lhe cada vez mais tranquilidade.

O saldo do que Armstrong realmente fez ao ciclismo, na correcta ponderação do bem e do mal, poderá apenas ser feito daqui a alguns anos, quando olharmos com mais calma e distância para todos os seus actos. É invariavelmente assim, em qualquer momento da História, mais recente ou mais recuada. Mas até lá, para esse resultado, bem ou mal, é preciso que ninguém tenha complexos em falar sobre Lance Armstrong.
Luís Gonçalves

À boa maneira australiana, foi sem complexos, que o actual organizador do Tour Down Under, assumiu que o principal impulso mediático que a prova teve, surgiu com a presença de Armstrong, coincidindo com o início do seu regresso à modalidade, em 2009.
Para tal indicou dados estatísticos, relacionados com público, patrocinadores e interesse geral na prova à escala global, que se demonstram crescentes desde então, considerando-se de forma avassaladora. Na antevisão da prova deste ano, o próprio ministro do desporto, sem os mesmos complexos, foi ainda mais longe, afirmando que “Armstrong colocou a prova no mapa”.
Para muitos, as declarações serão completamente despropositadas. Para muitos outros, nem tanto. O certo é que quando se fala de Armstrong, o mundo velocipédico divide-se. Mas, gradualmente, como é previsível, está cada vez menos dividido. Está claro que Armstrong não é flor que se cheire. Mas não era o único. Aliás todo o “império” que foi criado à sua volta onde, para além do próprio, muita gente e muitas empresas ganharam milhões, sabendo perfeitamente como era Armstrong, comprovam-no.
A partir de determinada altura, mais do que um ciclista, Armstrong, a sua marca, era, e porventura continua a ser, uma verdadeira empresa, que distribui-a lucros a muita gente. Curiosamente, ou não, gente que foi a primeira a enxovalhá-lo e a demarcar-se da sua imagem, nalguns casos, a accioná-lo judicialmente.
Em todo este caminho, e com uma personalidade forte, naturalmente se fazem inimigos, muitos inimigos. No desporto e na vida. Muitas vezes, também se procuram. O processo contra Armstrong, que correu pelas mãos da USADA, nos EUA, seria impensável na Europa. Os padrões da justiça americana são completamente diferentes dos nossos. Os americanos são muito mais permissivos da intromissão na vida pessoal e validam, quase, qualquer tipo de prova. Mas, no fundo, Armstrong, foi bem punido.
Pena é que pelo caminho, tenha servido um pouco de bode expiatório de tudo o que se passava. Neste contexto, podemos concordar ou não, admirar ou não, mas, apesar de várias vezes assediado pela justiça americana, em troca de benefícios na pena facilmente alcançáveis, nunca denunciou nenhum colega de equipa, nem sequer nenhum adversário. Negou sempre, e bem, a existência de um esquema altamente elaborado, o maior de sempre no desporto mundial. Pura mentira da imprensa, ávida de se vingar das muitas maldades que Armstrong lhe fez. Todos sabemos que o sistema de Armstrong e da USPostal, não tinha nada de especial, nada que não existisse em tantas outras modalidades, com tantas outras figuras.
Apesar de tudo, falar abertamente de Armstrong, sem ser só para dizer mal, continua a ser um problema. Os latinos, não são os australianos. Para nós, independentemente de todos os (muitos) erros do homem, reconhecer o mérito que Armstrong teve na construção da actual Volta ao Algarve, por exemplo, é quase tabu.
Não só para nós. É ainda difícil para o ciclismo mundial, reconhecer que Armstrong marcou uma era, que de certa maneira, para o melhor e para o pior revolucionou o ciclismo. Enquadrado num determinado tempo favorável, o impulso mediático de Pantani e sobretudo de Armstrong, lançou o ciclismo para uma nova era. A de uma modalidade a definhar, para uma modalidade moderna e rentável. Isto, para além de a tornar uma modalidade mais controlada, aparentemente com mais verdade desportiva.
E, embora bem custe a alguns que vaticinaram o seu fim, é notório o interesse no ciclismo americano e a sua extraordinária expansão, mesmo na era pós-Armstrong.
No meio disto tudo, o próprio Armstrong, fala com cada vez menos complexos de si próprio. Passou, nomeadamente, de um estado de negação do seu regresso em 2009, para o de assumir que voltaria a fazer o mesmo, considerando que é um episódio que faz parte da sua vida. A expiação dos seus pecados parece dar-lhe cada vez mais tranquilidade.
O saldo do que Armstrong realmente fez ao ciclismo, na correcta ponderação do bem e do mal, poderá apenas ser feito daqui a alguns anos, quando olharmos com mais calma e distância para todos os seus actos. É invariavelmente assim, em qualquer momento da História, mais recente ou mais recuada. Mas até lá, para esse resultado, bem ou mal, é preciso que ninguém tenha complexos em falar sobre Lance Armstrong.
Luís Gonçalves