PENSAR NOS SUB-23

Uma das questões que se tem levantado com alguma frequência no ciclismo nacional da atualidade é a da parca existência de equipas verdadeiramente Sub-23, portanto, ainda integralmente consideradas de escalão de formação.

De ano para ano, o problema agudiza-se, sendo cada vez mais difícil “escoar” o concorrido escalão de Juniores, ciclistas que devem seguir para um escalão condizente, ainda, com as suas necessidades formativas, não devendo nós menosprezar que não raras vezes, dos que ganham com frequência em Cadetes ou Juniores reza pouca história na modalidade.

Há quem diga que o ciclismo mudou, tem um novo paradigma e que Portugal tem que acompanhar essas tendências. É uma opinião. Mas, a título de exemplo, rumemos a 2005.

Em 2005 não tínhamos quatro equipas Sub-23, nem cinco, nem oito, nem doze. Tínhamos quinze equipas de Sub-23, num pelotão de quase duzentas unidades. Ainda dava para fazer a Taça de Portugal em zona A e zona B.

Notavelmente, um calendário só de Sub-23, com mais de trinta dias de prova em território nacional. Uma prova de abertura, só para Sub-23, normalmente no dia anterior ao dos profissionais. A Taça de Portugal só para Sub-23.

Desse pelotão, nomeando apenas alguns, constavam: Manuel Cardoso, Rui Vinhas, José Mendes, Filipe Cardoso, Edgar Pinto, André Cardoso, Rui Costa, João Benta, César Fonte, Daniel Mestre e Samuel Caldeira.

Não é um enxovalho a 2005, mas em 2004 eram 16 equipas, contando com a Madeinox/Canelas, comandada por Emídio Pinto, que no ano seguinte abraçaria o profissionalismo. Ora somemos aos de 2005, alguns (diferentes) de 2004: Tiago Machado, Sérgio Sousa, Bruno Sancho, Mário Costa e Ricardo Mestre.

Nomes onde estão vencedores da Volta a Portugal, de etapas, profissionais no Worldtour, campeões do mundo, numa panóplia abundante de nomes, sendo que alguns fizeram uma formação discreta nos Sub-23. Discreta, mas sustentada e em igualdade de meios, com os seus pares de então.

Estamos hoje demasiadamente focados em três ou quatro nomes com potencial, amplamente divulgados pela equipa Portugal. Mas o esquema actual, mais do que nunca, esquece os discretos que poderiam ganhar a Volta mais tarde ou enveredar pela internacionalização. Diz o bom português que não é com uma andorinha que se faz a Primavera. É, evidentemente, preciso um bom pelotão delas. Não se fazem primeiros sem os últimos.
Perante o panorama, a vontade de formar equipas Sub-23, esvai-se com demasiada rapidez, sem apoios, sem calendário, pondo em causa a sustentabilidade futura do ciclismo português.

Com uma concorrência cada vez mais feroz de outras modalidades, até há pouco tempo impensáveis em Portugal, também é preciso tornar mais atractivo o ciclismo a uma determinada faixa etária. O modelo seguido nos últimos anos nos Sub-23, com uma machadada maior este ano, é cada vez menos atractivo sobretudo num pelotão que cada vez mais, e bem, se preocupa com a sua formação universitária, por exemplo. A radicalização da competição leva-nos quase ao ciclista “antigo”, perfeitamente em desuso.

Portugal não é a Bélgica, nem a Holanda, muito menos a França ou a Inglaterra. Quando se querem adaptar modelos é bom que se pense que esses modelos têm que estar integrados num todo uniforme, envolvendo várias áreas da sociedade, não só a desportiva. Muito menos é positivo usar e abusar dos Sub-23 para tapar buracos, ou pior, servir interesses. Essencialmente é bom que se releve que os Sub-23 são apenas mais um estádio de formação do atleta, acima de tudo, da pessoa. Não é por sermos mais abrangentes, sendo fiéis à nossa forma de ser, que deixaremos de ter campeões. Bem pelo contrário, conforme nos demonstram os dados ainda recentes de 2004 e 2005.
Luís Gonçalves

1 comentário a “PENSAR NOS SUB-23”

  1. É certo que em 2005 havia mais equipas Sub23 e Elites, a bem da verdade também havia mais descontrolo, menos profissionalismo e uma comunidade com uma comunidade sem grande cultura desportiva. Fruto disso escândalos em 2008 e 2009, o ciclismo em Portugal nunca mais foi o mesmo. A credibilidade perante os patrocinadores e municipio foi se predendo. O ciclismo passou a ser um produto difícil de vender.
    Nos último anos as mentalidades dos atletas jovens é focada cada vez mais nas provas internacionais e cada vez menos na Volta a Portugal, preferirem arriscar em equipas de outros países que ficarem neste Ciclismo fechado.
    Fazer o que era feito nas épocas a que se refere (difícil de se conseguir) corre o risco de o resultado final ser o mesmo.
    Os tempos mundo, o ciclismo Português precisa de projetos e de técnicos que saibam compreender este fenómenos, que saibam olhar para além da próxima Volta Portugal.

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