VINTE ANOS DEPOIS! – “Aqui, em Portugal, corre-se de forma curiosa”

Iniciado um novo ano, por inerência inicia-se uma nova época no ciclismo, sem variar, todos os anos, com esperanças renovadas no alcançar de sucessos e destaques desportivos.

O início de qualquer novo ciclo é sempre marcado por novos desejos, ou antigos, ainda não realizados. Pela cabeça de qualquer ciclista, nesta altura do ano, sobretudo aos mais jovens, passam não sei quantas ideias, todas de relevo vitorioso. Mas, como sempre, durante a época, concretizam-se motivações e frustram-se outras. Cada um terá os seus objectivos, as suas vitórias mas, no fundo, para a estatística (tantas vezes enganadora!) vencedor só consta um. Como agora, também há vinte anos, por exemplo, por esta altura do ano, a maioria ansiava grandes feitos. Mas, centrados essencialmente em Portugal, quem terá ficado para a estatística?

Em 1998, Marco Pantani, faz a quase impossível dobradinha Tour/Giro. Abraham Olano, fica com a Vuelta.
Em Portugal, na prova de abertura, o espanhol Jesus Blanco Villar (LA-Pecol) é o vencedor. Nos primeiros grandes anos de internacionalização da Volta ao Algarve, comprovados pelo primeiro pódio inteiramente estrangeiro, o checo Tomas Konecny bate toda a concorrência, enquanto no Alentejo, Melcior Mauri, ainda em representação da Once, é o primeiro da geral. Relembre-se que no ano seguinte este ciclista viria para Portugal representar o Benfica.

O improvável campeão do mundo Romans Vainsteins é o melhor no Grande Prémio JN. Joaquim Andrade, ao serviço da Maia-Cin, impõe-se no Grande Prémio Abimota, enquanto o então colega de equipa, José Azevedo arrebata o Grande Prémio de Torres Vedras. Também da Maia, Carlos Carneiro, sucede a Delmino Pereira (Recer/Boavista) no título de campeão nacional de fundo, alcançando o seu primeiro título, de dois seguidos.

Em ano de Expo98, em Lisboa, a Volta a Portugal, com catorze etapas, parte de Sevilha, anterior cidade organizadora da Expo. Como sempre, na altura, grandes equipas e algumas figuras do ciclismo mundial. Dois, desistiram na última etapa. Pascal Hervé e Armand de Las Cuevas (não parece francês mas é!). Depois de iniciada uma fuga sem grande complacência e paciência do pelotão, então, numa etapa de consagração, os ciclistas da frente foram engolidos, insultados e acarinhados com alguns bidons e demais objectos. Insatisfeitos, retiraram-se da prova no último dia.

O italiano Marco Serpellini (Brescialat) venceu a Volta a Portugal 1998. Tem, durante esta Volta, uma declaração interessante: “Aqui, em Portugal, corre-se de forma curiosa”. Assinale-se que a Troimarisco era a equipa de Vitor Gamito. Continuando com o italiano: “reparei que a Troiamarisco não conseguiu entrar em acordo com outras equipas portuguesas, quando seria normal que isso acontecesse. Na minha opinião o melhor é encontrar aliados e não inimigos. Os interesses do ciclismo português deviam ser maiores do que as pequenas desavenças.”
Fica a declaração de Serpellini, em 1998, para a época 2018, vinte anos depois…
Luís Gonçalves