DO BOM SENSO HOLANDÊS, AO INTERESSE TELEVISIVO NO ALGARVE

Em tempo pouco fértil em acontecimentos públicos, o ciclismo vai preparando a nova época. Após o boom inicial do caso Froome, as notícias vão chegando agora a conta gotas. Para o melhor ou para o pior, espera-se que as gotas sejam bem mais grossas, do que aquelas que têm protagonizado o caso do André Cardoso. Neste, o conta gotas até deve ter avariado!

As punições, quando devem ocorrer, têm um tempo. Um tempo balizado para o atleta, mas também um tempo para quem a aplica. Contudo, o prejuízo, é quase sempre do primeiro.

Falando de punições e de tempo, saliente-se a inclusão, em 2018, de Michael Boogerd, na estrutura da equipa holandesa da Roompot, equipa do escalão continental profissional. Depois de cumprida uma suspensão de dois anos a que foi sujeito, relacionada com violação de normas anti-dopagem, foi a própria equipa que decidiu incluiu-lo no projecto. A ideia é a de que Boogerd, tem paixão pela modalidade, viveu uma experiência do lado bom, e do lado mau, sendo considerado, todo o conjunto, uma mais-valia na liderança e ensinamento de novos ciclistas, sobretudo na percepção do que é errado. Naturalmente que não é aconselhável fazer disto critério para tudo mas, concorde-se ou não, a Holanda é um país de virtudes, legalidade e bom senso, que percebe bem o que é o limite da pena aplicada, e acredita, porque assim tem que ser, na reintegração do atleta/agente.

À luz do que foi imposto, à margem da lei, no novo contrato de concessão da Volta a Portugal, conforme já foi assinalado noutro texto, esta seria uma medida impossível numa qualquer equipa continental portuguesa. A “nossa” visão interna da questão, embora as mentes, noutros sítios, tenham evoluído, faz lembrar aquela justiça retributiva da idade medieval.

Apesar das confusões, habituais no ciclismo, a modalidade continua a vender. Se há momento que nos foi grato em 2017, terá sido a vitória de Amaro Antunes na última etapa da Volta ao Algarve. Ressalvadas as vitórias do brasileiro Cássio Freitas (na equipa portuguesa, Recer/Boavista) no principio dos anos 90, a competição foi dominada pelos portugueses durante todos os primeiros anos, até finais da década de 90, quando surge o seu grande plano de internacionalização.

Com o verdadeiro click dessa internacionalização em 2004, com a presença de Lance Armstrong, na vitória do amigo Floyd Landis, é preciso recuar dez anos para encontrar o último português a vencer a geral, João Cabreira, em 2006. No contexto dos últimos dez anos até uma etapa é difícil de vencer, sobretudo se pensarmos nos portugueses que correm em equipas nacionais, não porque não tenham qualidade, mas porque a luta de equipas é desigual.

Por isso mesmo, o momento de Amaro Antunes, marcou os adeptos da modalidade. O interesse na Volta ao Algarve, e por inerência no ciclismo, é crescente. Se não estou em erro, embora sem ser em sinal aberto, penso que será a primeira vez que uma competição interna será transmitida, em directo, por dois canais com difusão nacional. Penso que a transmissão na RTP2 não coincidiu com a da Eurosport, em directo. Conforme se anuncia o evento, gostando mais ou menos dos comentadores disponíveis em cada estação, só pode ser entendido como uma boa nova.

A RTP, trouxe-nos o ciclismo português em directo. Continua a trazer-nos, em directo, a Volta a Portugal, que por breves anos esteve sob a alçada da SIC (que também nos brindou com um genérico inesquecível). Mas a RTP, a linha editorial, “dorme” em demasia o resto do ano. Não é com transmissões, em diferido, da Volta ao Alentejo, às duas da manhã (até é um contra senso para quem anda a dormir!), que se respeita o público.

A palmo, porque a SIC já não tem a capacidade ou necessidade que tinha então, a TVI vai aparecendo no meio. As boas intenções, tal como o interesse televisivo no Algarve, são sempre relativos. Para além dos interesses comerciais da região, o produto que todos querem, é só um, dois no máximo, e um é estrangeiro. O produto nacional é o que, enche grelhas, numa altura em que nenhum outro enche e vende tão bem. E aqui, transmitir é uma coisa, construir é outra. A RTP, para além de ter uma relação umbilical com o ciclismo, está habituada a construir. Anda é um bocado desleixada.
Luís Gonçalves