PENSAR O CICLISMO PORTUGUÊS, EM 2019

É certo que ainda nem sequer entrámos no ano 2018, o ano da próxima época. Mas para pensar verdadeiramente no futuro talvez seja melhor apontar agulhas a 2019. Isto porque, como é corrente, a grande maioria das decisões que afectam a época 2018, nalguns casos, como o da Volta a Portugal, até mais para a frente, já foram tomadas em 2017.

Deste ano, 2017, podemos saudar o aumento do medalheiro português, com bons resultados na pista e no btt. Quanto ao btt, mais propriamente ao xcm, a Presidência da Republica, continua esquecida dos feitos do Tiago Ferreira. Uma ou outra ideia, revelou-se menos rentável do que o que se previa na Federação. Não será por acaso que em 2018, a Volta ao Alentejo volta ao seu lugar natural. Mas no essencial a época acabou por não ter grandes sobressaltos, para além de nos brindar com a estrondosa vitória de Amaro Antunes no Malhão, na Volta ao Algarve.

Em 2018, continua a ser esta a jóia da coroa. Uma jóia verdadeiramente preciosa para o país ciclístico, um oásis, pelo qual convém lutar. Não convém contudo esquecer que existem mais provas para além da algarvia.

Os dirigentes federativos, como sabemos, serão os mesmos. Assim manda a democracia. O “corpo” de comissários é profundamente idêntico. Uma ou outra entrada nova ou mais recente, muitas mulheres, às quais será preciso dizer que não é preciso aramarem-se em “más” para se imporem num mundo tradicionalmente masculino. Bem, em boa verdade, a outras também será preciso dizer para não serem tão tenrinhas! Quanto ao resto, o expectável: alguns comissários internacionais sem grandes capacidades e, em oposição, comissários nacionais e até regionais, com visões da modalidade e de corrida (de todos os escalões!) muito mais amplas.

O calendário torna-se repetitivo. As próprias provas têm deixado pouco à imaginação. A conjuntura actual não tem dado tréguas. É cada vez mais difícil organizar uma prova de ciclismo. Os elevados custos e os apoios existentes são pratos de balança desequilibrados. Mas também não será preciso fazer sempre tudo igual. Sou, por exemplo, um confesso admirador da Volta ao Alentejo, a minha preferida em Portugal, onde me esforço por estar todos os anos. Mas não é por isso que deixo de a considerar das mais previsíveis provas do país, ano após ano. Somos sempre mais críticos em relação ao que mais gostamos!

Se a Volta ao Algarve nos traz a animação do Worltour, o que nos traz a Volta a Portugal? Em 2017, já nos trouxe, para além do mesmo organizador, o regresso ao Alentejo profundo. Mas é cada vez menos um fenómeno de geografia total. Não é só a nossa Volta. Retirando o Tour e o Giro, nenhuma competição destas tem escapado a isso. É algo com que teremos que saber viver.

Mas mesmo vivendo com isso, devemos pôr mais algum sal na competição. As normas internacionais limitam-nos os dias, mas usar sempre a mesma cartilha, sobretudo no perfil, também não ajuda. Obviamente que esta é a apreciação de quem vê ciclismo o ano inteiro, há vários anos. Para o espectador ocasional será sempre a maior festa desportiva do Verão português, sobretudo se existirem brindes. Por este caminho a fórmula continua a resultar, mas desportivamente, na medida do possível, convém repensar a Volta a Portugal.

Neste contexto, é certo que para o tal espectador ocasional, tanto faz estar cá a Katusha, como uma qualquer outra equipa russa da quinta divisão. O que vem de fora, salvo algumas honrosas excepções, não tem acrescentado mérito. Útil, mas sem o mesmo mérito, será a inclusão interna de equipas Sub-25, ou lá o que são! Isto, apesar de considerar que algumas até estão a organizar boas estruturas. Mas se, neste caso, pensarmos no que os regulamentos nos dizem só podemos considerar mais uma facada no prestígio da Volta.

Talvez ligado com isto resida a maior preocupação para 2019 e seguintes. O impacto de algumas medidas será ainda pouco notado em 2018. Mas, provavelmente, já em 2019, o ciclismo de formação, sobretudo os escalões de juniores e Sub-23, seja severamente afectado. A um bom calendário e pelotão de juniores, segue-se, quase, o marasmo. Um marasmo perigoso. Até a própria Volta a Portugal do Futuro, já em 2018, sob pena de um pelotão imensamente curto, terá que ter algumas renovações que, digo eu, serão sempre esquisitas e, apesar de porventura se pensar o contrário, lesivas dos interesses formativos dos verdadeiros Sub-23.

Embora as mudanças sejam sempre necessárias, mais do que mudar, às vezes, é preciso uma linha orientadora. Mudar todos os anos para experimentar, sobretudo numa área, a formação, que deveria ser estável é prejudicial. Tivemos, não há muito tempo, um plano formativo e competitivo, nomeadamente nos Sub-23, que nos deu largos frutos. Sem queimar etapas, tem que existir um tempo e paciência para tudo. Não se devem cruzar tantos interesses divergentes, quase numa lógica de facilitismo ou de cedências.
São apenas ideias. Algumas de muitas. Uns gostarão, outros não. Para todos, um Bom Natal!
Luís Gonçalves