A INJUSTIÇA DOS NOVOS AUTOS DE FÉ -qualquer dia, um ex-ciclista condenado por violação de normas anti-dopagem não pode ter uma simples loja de bicicletas

Assim como no futebol, geração após geração, se mencionam fenómenos corruptivos, desvirtuadores da verdade desportiva, no ciclismo, geração após geração, se fala de dopagem como o principal factor potenciador da mentira desportiva. Não é que no futebol não exista dopagem. Também a há, em boa medida. Mas é mais populista, nos diferentes ciclos de poder, culpar os árbitros de todo o mal ou incompetência do futebol.

Em bom rigor, não raras vezes, os dados que chegam ao nosso conhecimento, confirmam ou indiciam fortemente algumas suspeitas.

Por isso mesmo, geração após geração, lá vêm os Autos de Fé, ora porque no clube x são todos corruptos (e no meu não…), ora porque esta geração, ou eu, integrado nesta geração, sou um atleta limpo.

No ciclismo, normalmente, esquecendo-se os ciclistas e demais agentes da história da modalidade, convenciona-se que os males estão todos para trás, assim como em qualquer autarquia, ou governo, a culpa é sempre de quem esteve antes. Há verdadeiros autos de fé em que se pronunciam raios de Sol mais brilhantes, depois da punição de determinado ciclista. Não há quem não emita opinião e proclame a sua pureza. Os pecados são sempre dos outros, sabendo nós que, tendencialmente, quem mais fala, mais deixa a desejar.

Mas, como o problema, geração após geração, demonstra não ter fim, também vai radicalizando opiniões e atitudes. As penas para os prevaricadores (na dopagem) são cada vez mais severas, nalguns casos a roçar as más práticas da justiça, sobretudo se pensarmos que são aplicadas a gente com uma vida útil de trabalho (o atleta) muito curta. Quase autênticas prisões perpétuas.

Não é o que pensa o comum cidadão (que, na maioria, também só vê defeitos nos outros), mas a aplicação de uma sanção/pena a alguém é uma espada permanente por cima da cabeça do decisor. Exige-se séria ponderação sobre a vida presente e futura das pessoas.

Embora não pareça, para além da lembrança óbvia de Froome e de todos os que têm falado, também vem isto a propósito, do contrato de concessão da Volta a Portugal. No novo contrato, por imposição da Federação, o organizador compromete-se a não ter ninguém no seu staff, que tenha sido condenado por violação de normas antidopagem, nos cinco anos anteriores. O que se percebe é que alguém que esteja dois anos suspenso, conforme sanção efectivamente aplicada dentro da legalidade, terá ainda um bónus de três anos à margem do que pretende a lei.

Conforme nos é dado a perceber pelo texto do acordo, também não se deve permitir a participação de um ciclista ou membro de staff de equipa que tenha sido condenado a pena de suspensão de dois anos ou superior (medida, a contar da data de assinatura do contrato senão… é fazer as contas a alguns!). Se bem se percebe, alguém é suspenso três anos, cumpre escrupulosamente a sanção, conforme ditam as normas, pode ir à Volta a França, mas não pode participar na Volta a Portugal. É isso, ou estarei enganado?

Sobre os períodos de suspensão e as suas condicionantes, até nos diz a Lei (não um simples Regulamento), evidentemente como forma de reintegração do prevaricador na sociedade ou no meio do qual faz parte que, durante os últimos dois meses de período de suspensão (podendo ser quatro no caso de ser menor!) o atleta pode retornar ao treino com a equipa, usar instalações do clube ou da federação desportiva a que pertence.

Ou seja, depois de devidamente cumprida a pena, o atleta/agente, nos termos da Lei, deve ser, caso o pretenda, reintegrado. Sem discutir a necessidade do castigo correctamente aplicado, ir mais além disso em medida de punição será negar direitos básicos ao cidadão.

Já sei que, neste tempo, com os ânimos exaltados nem será o momento certo para falar deste tipo de castigos quando as opiniões serão muito mais radicais no sentido de se “matar” tudo, incluindo o autor do texto. Provavelmente, daqui a umas semanas, as ideias de maior ponderação, teriam mais acolhimento. Porém, se formos demasiadamente aos extremos, e abusar-mos da nossa posição de decisor num novo modelo de Auto de Fé, qualquer dia, um ex-ciclista condenado por violação de normas anti-dopagem não pode ter uma simples loja de bicicletas.
Luís Gonçalves