IMAGINAR A VOLTA A PORTUGAL COM CINCO DIAS…

David Lappartient, actual recente eleito para a presidência da UCI, tem andado ocupado. Pelas ideias que demonstra ter, e já aqui, noutro texto, referimos algumas, parece ter pouco tempo para sequer dormir.

É natural que qualquer recém empossado, de qualquer cargo, nos apareça cheio de novas ideias e estas, como em qualquer situação, são escrutinadas e criticadas negativamente por uns e positivamente por outros. Quanto a mim, parece-me, que Lappartient está a querer seguir um caminho radical de mais por um lado, e demasiadamente evidente proteccionista, por outro.
Achei curioso, o francês, pensar sobre uma velha ideia do “maluco” do Oleg Tinkov (mas às vezes de um maluco também surgem ideias aceitáveis!). A ideia era a de dividir pelas equipas do Tour, como noutros desportos, quantias monetárias resultantes da transmissão televisiva. Lappartient pensa que o que resulta dos dividendos das transmissões televisivas do Tour, não é tanto como em outros desportos (já o sabíamos), portanto, nem valeria a pena distribuir cerca de um milhão de euros a cada equipa, sobretudo quando há equipas com orçamentos superiores a 30 milhões. Como sabemos, mesmo no Worldtour, são muito poucas as que têm esse orçamento, e um milhão de euros, no ciclismo, nunca serão de desprezar!

Quanto aos calendários, entende que estão demasiadamente preenchidos pelas grandes voltas. 69 dias por ano. Também tem uma ideia interessante. Para ele o Tour, é o Tour, dando a ideia que deve permanecer inalterado o seu perfil de duração. Mas o Giro e a Vuelta, já podem ser alvo de negociação. Imagine-se o que pensará este francês da Volta a Portugal.

Sobre todas as outras provas europeias, de preferência fora do território francês, a mensagem é clara: estão a ocupar o calendário chinês. Só o Tour não estraga os interesses comerciais da modalidade na China, e afins.

Sobre as femininas, vê um ciclismo muito embrionário, sem grande sustentabilidade de equipas, mas avança com outra ideia. Falar com a ASO, fomentando um investimento na La Course, associada ao Tour, na França. O resto, mesmo o Giro Della Donne, é periferia.
Dos ciclistas em cada prova, também já sabemos, quanto menos melhor. Faz sentido, os ciclistas e as bicicletas são o que menos interessa à modalidade. Será sempre positivo, um dia destes, termos mais gente a “trabalhar” na UCI, e para a UCI, do que ciclistas nas principais equipas. Teremos também oportunidade de reavivar a memória da vitória na Volta, de Venceslau Fernandes, com a sua Ajacto, de apenas cinco ciclistas, incluindo o próprio. Enfim, não foi uma Volta só de boas memórias (1984), mas lá que na Ajacto só alinharam cinco, isso foi.

Naturalmente que qualquer actividade, como uma planta, precisa de ser regada e com alguma frequência podada para poder crescer sustentada e ganhar novos ramos. Mas o que uma planta não consegue, mesmo sendo regada e podada, é sobreviver sem raiz.
Há ideias que podemos e devemos lançar para modernizar a modalidade e adaptá-la aos novos tempos. Mas nunca devemos descurar a sua essência. E a essência do ciclismo é a de modalidade épica e tradicionalista. Nada melhor que as grandes voltas, ou as extraordinárias clássicas, para nos fazerem constantemente lembrar disso, a nós, permanentes, e a todos os outros que não vêem o ciclismo de outra maneira. O Tour é uma parte essencial da engrenagem, mas não a única.

Até pode ser que isso aconteça e o aceite. Mas por enquanto, não consigo imaginar, pelo menos o Giro, com 14 etapas, ou o Tour de Flandres, com 140 Km. Teria que imaginar a Volta a Portugal com cinco dias…
Luís Gonçalves