O EXEMPLO DE VALVERDE

Alejandro Valverde, é cada vez mais consensual no ciclismo. Não tem os impulsos de Contador, nem de Landa, pode-se dizer que corre de uma forma mais conservadora, mas sem que isso o faça ir atrás da vitória, como aliás é visível no seu vasto palmarés, e na forma como muitas vezes assume o seu lugar de dianteira quando é preciso, falhando poucas vezes.

Eusébio Unzué, mais do que ninguém, sempre reconheceu isso, tornando claro quem era, ou é, o seu preferido. Nesta visão, por vezes, a Movistar até pode ter saído prejudicada mas, por outro lado, como muito poucos, os contributos de Valverde para a equipa também têm sido imensos e constantes.

Valverde prepara-se para fazer 38 anos ao mais alto nível, numa carreira longa e com algumas lombas. Justa ou injustamente, esteve suspenso, treinou muito durante esse período, superou-o, e regressou com uma disponibilidade mental acima da média. São poucos os que o conseguem. A maioria esvai-se em problemas, sobretudo sabendo nós que os períodos de suspensão são cada vez mais longos. Já não estamos no tempo em que os ciclistas, por exemplo, acusavam uma qualquer substância proibida uma prova, eram apenas desclassificados (perdiam lugares) dessa prova e preparavam-se, imediatamente, para a próxima. Pode-se dizer que as agruras físicas de outros tempos (não tão distantes) eram bem maiores, mas a pressão mental, hoje, até porque mais escrutinada publicamente, parece maior.

Valverde recupera de outro sobressalto. A violenta queda no Tour deste ano que o impediu de competir o resto da época. Diz-se mais motivado que nunca, tem um calendário previsto preenchido e ambicioso, e afirma estar pronto para voltar a ganhar.

Continua metódico no treino, característica que provavelmente também lhe vale a longevidade. Optou por descansar, como se tivesse feito toda a época, em vez de pedalar “à bruta”. Fará a sua pré-época quase normal, aquela que há muitos anos lhe vale bons resultados.

Neste quadro, seria bom que os candidatos a ciclistas olhassem para Valverde como um exemplo (à parte, dos defeitos que todos temos!). Um exemplo de como o descanso, às vezes, é a melhor forma de treino, mas sobretudo da superação das dificuldades, ambição e do compromisso que é preciso assumir com uma modalidade que está longe de ser fácil de abraçar, sobretudo durante tantos anos.

É bom ver um ciclista de quase 38 anos anos a divertir-se em cima da bicicleta. Vejo muitos jovens, bem cedo, já sérios de mais, ainda nos escalões de formação, cegos no meio de exaustivos planos de treino que querem compreender, sem saberem ainda o que é verdadeiramente andar de bicicleta e muito menos o que é o ciclismo. Há um tempo para tudo. As boas e sólidas casas são impossíveis de construir pelo telhado e as boas características de Valverde, notoriamente, começaram pelos alicerces.
Luís Gonçalves