Ainda Lappartient e não só: “Parece que ainda ninguém se lembrou de propor aos dirigentes políticos europeus estas verdadeiras normas de  integração social “

Deu pano para mangas a entrevista de David Lappartient, o francês que comanda os destinos do ciclismo mundial, e que o Luís Gonçalves tão bem escalpelizou hoje nestas ” páginas”.

Os comentários choveram um pouco de toda a parte, mas o mais sarcástico , objetivo e real foi o de Lance Armstrong. O americano fala pouco, foi banido para o resto da sua vida, retiraram-lhe os sete triunfos no Tour e ironia das ironias, um outro ciclista com o mesmo numero de triunfos, apanhado nas malhas do doping, Richard Virenque, vencedor de sete prémios de Montanha do Tour, está feliz e contente. É bem verdade, é francês.

Vejamos o comentário de Armstrong :  “URGENTE : o ciclismo necessita de muita gente para gerir equipas, dirigir corredores, conduzir na caravana, gerir e organizar eventos, comentar na TV e, inclusivamente trabalhar na @ UCI cycling. Enviar curriculuns para @DLappartient!”

Sarcástico ou não, Armstrong tem toda a razão o seu comentário, pois se Lappartient quer uma purga, as equipas, em especial até as do World Tour ver-se-ão às ” aranhas” para encontrar novos diretores desportivos e managers, dada a ligação de muitos deles a uma época  em que todos competiam da mesma forma.

O grave da questão leva-nos para o poder discricionário  que algumas pessoas e instituições ligadas ao desporto e, em particular ao ciclismo, querem ter, passando por cima das normas instituídas por uma sociedade, justa, equilibrada, democrática, tolerante e integradora . Vem isto a talhe de foice, pelo facto de um atleta, ou dirigente ter sido castigado por um determinado período, por uma infração por doping, por exemplo, com  quatro anos. Cumprida a pena, o atleta ” pagou ” à sociedade o seu crime, podendo voltar a competir. O que se assiste, no mundo dos pedais, não é bem isto. Bem antes pelo contrário. Não satisfeitos impedem o atleta de encontrar uma solução para a sua continuidade desportiva. Aplicam novas medidas coercivas, ameaçam equipas e dirigentes, condicionam organizadores, de forma a que estes não aceitem a inscrição de ” ex-condenados”, pelo menos por um período suplementar de mais dois anos.  Isto é o desejo de Lappartient, mas também do organizador da Volta a Portugal.

Agora imaginemo-nos na sociedade civil. Isaltino de Morais, recentemente eleito presidente da Câmara de Oeiras, foi condenado a uma pena de prisão de aproximadamente cinco anos, que cumpriu, saindo até algum tempo antes por bom comportamento. Não satisfeito com a situação, o Presidente da Republica , Marcelo Rebelo de Sousa, por seu livre arbítrio e não contente com a possibilidade do ex- dirigente do PSD poder vir a ser de novo autarca eleito, manda um dos seus muitos escriturários tornar público que vai impedir Isaltino, e outros nas mesmas circunstâncias, de poderem participar na vida politica e social do país, por mais um período suplementar de dois anos, e as forças partidárias que não respeitarem esta determinação serão impedidas de concorrer às respetivas eleições.

Será isto democrático ? Será isto possível num estado de direito ?  Na selva do mundo do desporto e do ciclismo em particular, vale um pouco de tudo. Parece, contudo, que ainda ninguém se lembrou de propor aos dirigentes políticos europeus estas verdadeiras normas de  integração social . Bem estavam tramados todos os presos que cumprissem pena, mais valia ficarem na prisão por mais algum tempo, em vez de morrerem de fome em liberdade.

JS