OS DOPADOS DE DAVID LAPPARTIENT

Enquanto o ciclismo de estrada é preenchido por algumas competições com menos interesse, como a Volta ao Ruanda, e a pista e o ciclocross se animam e preenchem bem o interesse de alguns adeptos da modalidade, o actual presidente da UCI, David Lappartient, parece ainda não ter compreendido que já não governa a UEC, nem sequer a federação francesa.

No seu ainda curto mandato, tem atirado sem grande critério a tudo e a todos, desde que não sejam franceses, e avançado com ideias, porventura, desajustadas aos interesses da modalidade.

Recentemente, fez ataques ferozes dizendo que os dopados não têm lugar no ciclismo, qualquer que seja a sua função. Referiu-se substancialmente a Riis e Vinokourov. Até aqui tudo bem, se são os seus ideais, apesar de rumarem contra o que é instituído na sociedade civil sobre a reabilitação de indivíduos condenados. O problema é que se tem esquecido com alguma insistência dos franceses, sendo que, alguns dos quais, até já estiveram sob a sua alçada directa e nada fez no sentido que agora vem assinalar.

Também é evidente que, se entrarmos por este caminho radical, mais tarde ou mais cedo teremos problemas. Como bem assinalou Michael Rasmussen, teríamos que pôr de parte os projectos  de Contador e Valverde, ou, digo eu, de Hincapie, Wiggins e tantos outros, como Cancellara, que continua em permanente suspeita de doping mecânico.

Obviamente que ninguém quer ver premiados os prevaricadores que, na altura e medida certa, devem ser punidos, nalguns casos severamente. Mas terá sempre, em qualquer actividade, de existir alguma condescendência ou ponderação, até porque, cada violação das normas pode ser distinta. Ou seja, se me falarem de Hincapie, serei condescente, mas se me falarem de Ricardo Ricco, já serei intolerante.

Não devemos contudo entrar pelo caminho da intolerância total e radical e colocar de um lado os bons e, do outro, os maus. Isso não existe. Note-se, Armstrong, foi irradiado vitaliciamente (até ver), mas se fossemos radicais teríamos que irradiar para a vida, na sua actividade, tanto Armstrong, como quem o perseguiu, porque também utilizou métodos proibidos para construir o processo e alcançar o sucesso. É público e provado, por exemplo, que algumas amostras de Floyd Landis tinham sinais de violação do frasco, algo inqualificável. No fundo a fraude que alimentou um, também alimentou os outros, embora tenhamos mais tendência a perdoar os segundos. No entanto, perseguir uma verdade, não pode gerar a anarquia ou adaptação nos procedimentos. Isso é próprio das sociedades ditatoriais.

As questões levantadas por Lappartient teriam mais substância se as tivesse sustentado em actos próprios de justiça, sobretudo quando “mandava” só nos franceses. Não o fez, nem faz, logo perde metade da razão.

Não deixam porém de ser boas questões, mesmo que não sendo novas no seio da modalidade. Como sempre, as opiniões dividem-se. Nós, portugueses, não devemos esquecer-nos, que se fossemos totalmente radicais, não teríamos pódios no Tour e na Vuelta, nem um campeão do mundo de estrada.
Luís Gonçalves