RECUAR A 1903…

Para quem ande menos familiarizado com ciclismo, o ano de 1903, será quase o ano zero da modalidade, o ano do primeiro Tour, conquistado pelo francês Maurice Garin.

Em 1903, como é fácil calcular, o formato da corrida que continua a servir de guião a tudo o que se passa no ciclismo, era substancialmente diferente.

Uma das diferenças marcantes de 1903 e de anos próximos deste, incidia no facto de os ciclistas correrem de forma individual. Isto, salvo um ou outro acordo que sempre existia. Mas no essencial pode-se dizer que era o salve-se quem puder. Já assistíamos,  contudo a uma disputa dos fabricantes de bicicletas, principais patrocinadores dos participantes, pelo melhor ciclista e consequentemente pelo melhor resultado. Foi duma confusão dessas que surgiu a ideia das selecções nos anos 30, formatando-se o actual modelo de equipas comerciais já nos anos 60.

Porquê este enquadramento? No actual quadro de permanentes ideias de redução de ciclistas por equipa a UCI, para além de evidentemente lesar os interesses laborais dos ciclistas, parece querer recuar mais de cem anos, e regressar (quase) ao salve-se quem puder. Naturalmente que este retrocesso se faz, para não variar, à custa de ciclistas e equipas, nunca dos interesses comerciais instalados. De outra forma não teríamos partidas do Giro em Israel, ou um dia destes, no Japão.

Tal como em 1903, continua-se a exigir muito dos ciclistas que continuam a fazer, por vezes, etapas a roçar o desumano a bem do espectáculo comercial. E, em vez de deixarmos distribuir o esforço por vários ciclistas parece que teremos que o concentrar em cada vez menos ciclistas. É uma conduta completamente imprudente da UCI, porque envolve riscos acrescidos para uma modalidade já tão massacrada.

Temos também outra perspectiva da questão. Tanto faz recuar cem anos, como avançar cem anos. Mesmo no salve-se quem puder, tendencialmente, quando chegamos ao fim do Tour, os nomes da frente serão os do costume. Assim como Maurice Garin disputou o Tour com mais dois ou três nomes que marcaram aqueles primeiros anos, também Froome, enquanto puder, o continuará a disputar com os suspeitos do costume.

Quanto ao espectáculo prometido com a redução de ciclistas, até pode ficar logo estragado nos primeiros dias, onde normalmente existem alguns abandonos por queda e, provavelmente, assistiremos a uma ainda maior “especialização” de cada equipa. Terão tendência para acabar aquelas equipas que ainda concediam alguma liberdade aos seus ciclistas. Em circunstâncias normais até acho que o Tour ficará ainda mais previsível. Os mesmos candidatos à amarela, os mesmos candidatos à verde, os mesmos candidatos ao sprint, os mesmos candidatos ao contrarrelógio e equipas mais implacáveis, por necessidade, na sua exclusiva missão.
Luís Gonçalves

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