Estes dias sem ciclismo, fazem-nos escrever estas coisas, puros devaneios

O ciclismo sem provas dá que pensar a muita gente e as ideias surgem em catadupa, quer a nível internacional quer a nível nacional.

Por cá, continua a pensar-se como é possível, num país com nove equipas ditas continentais , seis com estatuto profissional e três com estatuto amador ou de formação, existir apenas cinco equipas de sub-23, esperando-se que algumas delas se apresentem  mais estruturadas que em anos anteriores. Alguém quis inverter a pirâmide e o resultado foi este. Continua-se também a falar da Volta e a encontrar soluções para que o percurso da nossa Grandíssima vá ao Algarve, nem que isso custe balúrdios ao organizador e às equipas, isto porque na  óptica da entidade reguladora a nossa pequena Volta tem de percorrer , de quando em vez todos os distritos do nosso país.

O curioso, é que, na ótica da entidade reguladora, não se promova também, uma etapa da Volta ao Algarve, no norte do país, mostrando a esta região as equipas e ciclistas e de nível mundial que participam na prova algarvia. De quando em vez, também se poderia tentar esta hipótese, apesar das neutralizações serem talvez avantajadas, um pouco comparáveis com a neutralização que esperam certamente equipas e ciclistas da Volta a Portugal, quando tiverem uma etapa no Algarve.

Uma Volta que luta para manter uma aureola , que já teve, e que foi destruída, sabe-se lá por quem, com equipas de grande nível, que cada vez estão mais distanciadas da nossa realidade. Na verdade, a Volta compete, nas mesmas datas, com uma série de competições, quer ao nível do World Tour, quer nos países ditos emergentes e da nova vaga do ciclismo mundial, nos países nórdicos, e mesmo aqui ao lado, a Volta a Burgos é bem mais apetecível que a nossa Volta, vá-se lá saber também porquê. Na verdade, a grandeza organizativa da nossa pequena Volta é bem maior que todas estas competições, batendo-se em termos organizativas, por exemplo, com a Vuelta a Espanha, falhando, contudo, numa boa estrutura do percurso.

Um percurso que, agora se apresenta também como um dilema: será a Volta talhada , a curto prazo,  para grandes alterações, no sentido de facilitação do percurso, cada vez mais suave, de forma a atrair equipas de formação ?  Na verdade, se olharmos para o percurso da Volta do ano passado, facilitar ainda mais, é transformar a Volta numa prova sem conteúdo competitivo. Primeiro, o organizador já afastou da cena e do campo competitivo a chegada à Torre, sem encontrar uma alternativa de peso. Segundo, conseguiu transformar a etapa da Senhora da Graça numa tirada amorfa , resumida apenas, a nível competitivo, para os ultimos kms da Serra do Monte Farinha.

O ciclismo vai , contudo, resistindo e mantendo a chama viva, embora, com menos luz.

Lá por fora, o atual presidente da UCI não tardou a querer implementar uma série de medidas, que deveria ter em mente, muito próprias, aliás, da recente mentalidade, algo chauvinista, dos nossos amigos franceses, os impolutos do pelotão.

Para além de querer eliminar de vez , diz-se em 2019, com os corticosteroides, com uma alegação pouco abonatória. Segundo Lappartient , quem estiver doente que se trate primeiro, e depois corra, como se não houvesse medicamentos capazes de prevenirem e possibilitarem a participação de uma atleta em determinada competição, sem prejuízos para a sua saúde,   como senão houvesse entidades independentes, capazes de assegurarem a necessidade dessas tomas, salvaguardando a verdade desportiva. O francês não vai, contudo, contra o desmesurado aumento das dificuldades das provas, que obriga ciclistas a sobrecargas cada vez mais exigentes que, por sua vez, propensiam a tomada de medicamentos, ditos recuperadores, cada vez mais complexos, e aqui sim,  proporcionam danos graves na saúde de um ciclista.

Provas exigentes, dominadas por uma equipa, bem organizada em todos os domínios, com um bom orçamento, ao que dizem ilimitado, como caso da Sky. Como sempre optou-se pela via mais fácil, numa tentativa de resolver tão grande supremacia : há que reduzir o numero de ciclistas por equipa nas grandes provas mundiais, isto a arrasto de medidas de segurança. Já se pensa, até, em reduzir esse numero para seis , querendo transformar o ciclismo, não como um desporto coletivo,mas sim, como um desporto predominantemente individual em que qualquer um pode ganhar.

Uma modalidade vive de nomes, de ídolos, em especial o ciclismo:Coppi, Bartali, Anquetil, Merckx, Hinault, Armstrong , Contador e agora Froome. Todos eles tiveram a seu lado grandes equipas, e só assim conseguiram vencer, e que o diga Tom Dumoulin naquela desgraçada Vuelta em que, sem equipa, ficou perdido no meio de nada. Sem ídolos, o ciclismo vai perdendo espaço .

Outra medida que está à espera de melhores dias, é a passagem dos grandes Tours para apenas duas semanas, e quando isso acontecer, se é que venha a acontecer, o ciclismo perderá, em definitivo,o seu caráter de epopeia, e passará a ser mais uma modalidade igual a tantas outras, sem ídolos e sem referências épicas.

Ainda neste âmbito, e sem querer fugir aos devaneios do francês presidente da UCI, há que pensar na ideia de Eusébio Unzué, diretor desportivo da Movistar, dando como sugestão a possibilidade de uma equipa poder substituir três ciclistas, ao longo de uma grande prova de três semanas,  que tenham sido vitimas de queda . A ideia até não é nova, e reflete um pouco, a indignação de uma grande franja de equipas e ciclistas para com a  etapa de pavés, com que a organização do Tour, mais uma vez, nos vai presentear, para podermos assistir comodamente sentados nos nossos sofás.

O ciclismo é isso mesmo, cada vez menos um desporto e cada vez mais um espetáculo, nem que para tal, se obrigue diretores desportivos a deixarem em casa os rádios de comunicação com os ciclistas, porque isso estraga o espetáculo. Curiosamente, e como diz Contador,  porque não se impede os potenciómetros , isso sim, um motivo calculista  de reservar esforços  ? A resposta é simples : estão em jogo interesses comerciais, com os quais a UCI não tem interesse em “estragar”.

Estes dias sem ciclismo, fazem-nos escrever estas coisas, puros devaneios .

JS

1 comentário a “Estes dias sem ciclismo, fazem-nos escrever estas coisas, puros devaneios”

  1. Ao ser eleito este senhor francês para dirigir a UCI, ele está a procurar distrair toda a gente falando de medidas sobre doping, sobre alterações nas equipas e nas provas, mas esconde o principal objetivo.

    Sabem qual é?
    Conseguir que um ciclista francês vença o Tour.
    Este é o grande mal de que sofrem todos os franceses há 32 anos.
    Então, agora que está um francês no poder, há que aproveitar e forçar para que isso aconteça e a curto prazo.

    Tal como o futebol, que deixou há muito de ser um desporto para ser uma indústria, também o ciclismo irá perder e muito nos próximos anos.

    Perderá popularidade, deixará de ter tanto interesse e só chamará pessoas para a beira da estrada se não houver futebol na TV.

    É pena, mas será esta a verdadeira realidade também a curto prazo.

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