PISTOLEIROS, FOGUETES E FAÍSCAS

Em qualquer modalidade desportiva, ou em qualquer outra faceta da vida, todos conhecemos indivíduos alcunhados de qualquer coisa. Não é até raro conhecermos a pessoa apenas pela alcunha e ignorarmos o seu verdadeiro nome.

Como não podia deixar de ser o ciclismo está cheio de alcunhas, ou de nomes que associamos imediatamente a um ciclista. Para quem está familiarizado com a modalidade, o Pirata, o Pistoleiro, o Rei Leão, o Tubarão ou o Canibal, são nomes conhecidos e que se associam instintivamente a ciclistas específicos.

Em Portugal, temos provavelmente duas alcunhas que nos saltam à vista, uma mais antiga e outra bem mais recente. Começando pela mais recente, naturalmente todos associamos o “foguete da Rebordosa”, a Cândido Barbosa, característica que lhe surgiu das inúmeras vitórias conquistadas ao sprint. Por tal até podia ter sido o “Rei do Sprint”, mas o título já havia sido ocupado uns bons anos antes por Onofre Tavares. E já que se fala em reis, Alves Barbosa é o “Rei dos furos”… mas o José Alves Barbosa, pai do “nosso” António Alves Barbosa, que tão bem conhecemos, e cujo pai também tinha sido ciclista, embora com bem menos sucessos desportivos na carreira.

Com tanto, ou mais, destaque como o foguete da Rebordosa aparece-nos no final dos anos 30 “O Faísca”. José Albuquerque, homem de Mangualde vencedor de duas Voltas, ganhou a alcunha por, enquanto aprendiz de barbeiro, se deslocar na sua bicicleta com enorme velocidade. Isso e porque o pai tinha um rápido cavalo chamado Faísca. Das deslocações para o trabalho ao ciclismo foi um pequeno salto. Foi um vencedor e uma estrela da modalidade, todos queriam ver o Faísca, embora, ao vivo, se desiludissem um pouco com a sua aparência franzina. Não teve sorte com a vida e morreu atropelado afundado em problemas com o álcool.

Foi protagonista de acesa disputa pela vitória na Volta de 1941 que acabou por sorrir a Francisco Inácio, “o Pedreiro do Casalinho”. Sem vencer a Volta, bem pelo contrário, encontramos o ciclista do Belenenses José da Costa, mais conhecido por “Zé da Burra”. Não me perguntem porquê!

Do Jacky Durand português, ao Peter Sagan português, passando pelo Poulidor português, existe uma variedade de produtos externos adaptados à nossa realidade. Depois temos o sapo, o chinês, o pisco, o carraça… enfim um sem fim de alcunhas, umas mais agradáveis, outras menos, que inevitavelmente vão continuar a nascer. Haja imaginação.
Luís Gonçalves