breve história do ciclismo feirense

Um regresso que se sauda.
O Feirense está de volta.

Falar sobre o ciclismo feirense, numa publicação que não pretende ser um tratado histórico, obrigará sempre a um resumo dos maiores eventos e figuras, de tantos eventos, estórias e figuras, que compõem a longa e profícua história do ciclismo em Santa Maria da Feira.

De facto, como em poucas zonas do país, há uma forte ligação umbilical à modalidade. Num resumo breve, destacam-se apenas alguns pormenores, correndo o risco de ser injusto com a maioria dos muitos que ao longo dos anos construíram a modalidade, e retrata-se uma nova página do ciclismo feirense.

Desde muito cedo que os feirenses se habituaram a ter ciclistas no pelotão nacional. Direi que porventura é a localidade do país com a maior presença sem interrupções de ciclistas no pelotão profissional. Não é o concelho com mais vitórias na Volta a Portugal, título que pertence ao Cartaxo, mas é o concelho com mais vencedores diferentes da Volta a Portugal, seis, desde José Sousa Cardoso, no já longínquo ano de 1960, a Fernando Carvalho, em 1990.

Se os ciclistas sempre abundaram, em equipas, também nunca existiu escassez. Desde finais dos anos setenta que a presença de equipas oriundas do concelho da Feira tem sido permanente, sobretudo em relação aos escalões de formação. Destacam-se quatro. A primeira, o N.D.Travanca, teve como um dos fundadores e primeiro presidente um homem da terra (da Feira e, de Travanca) um figura incontornável do ciclismo feirense e da modalidade no geral: Abel Matos. Mais do que coleccionar títulos nos escalões de formação, em várias vertentes da modalidade, sendo provavelmente a mais eclética equipa de ciclismo do concelho, deu ao ciclismo profissional inúmeros ciclistas, como Carlos Pinho, Eduardo Correia, Joaquim Andrade ou Pedro Andrade e apresta-se para continuar a dar.

Mais recente, não podemos deixar de referir a Escola de Ciclismo Fernando Carvalho, então liderada por este ex-ciclista, e por onde passaram no seu processo formativo, por exemplo, Tiago Machado e Nelson Oliveira.

Mas sem dúvida que o exemplo que nos saltará mais fresco na memória, será o do Sport Ciclismo São João de Ver. São incontáveis os sucessos deste clube, com uma extensa lista de ciclistas que passaram pelo projecto, nomeadamente Rui Costa, numa equipa desde cedo liderada por Fernando Vasco Costa, ladeado até há não muito tempo e durante muitos anos por Manuel Correia.

Por fim o Feirense. Entre 1984 e 1986, só com formação, e entre 1987 e 1993 com uma equipa profissional. Quem viveu essa época, ou quem é curioso pela história da modalidade, certamente se lembra dos equipamentos do Feirense, com os patrocínios da Philips, da Imporbor, mas mais do que tudo, dos calçados Ruquita, empresa então comandada por outra das maiores figuras da Vila da Feira, Luís Silva, com a alcunha de Salazar, provavelmente, ao contrário do que indica a alcunha, um homem bom demais para se “meter” nas políticas do ciclismo! De qualquer forma, conjuntamente com Abel Matos, e com o auxílio de outros feirenses, como o Sá, o Joaquim Andrade (vencedor da Volta de 1969), ou Fernando Mendes (que ganhou a Volta de 1974), treinador à data da vitória de Fernando Carvalho na Volta, formaram uma das maiores equipas dos anos 80/90.

Por essa altura os sucesso do Feirense no ciclismo, onde também foi treinador o grande Emídio Pinto, não se resumiam à vitória de Carvalho na Volta. Dois segundos lugares na mesma competição, em 1991 por Orlando Rodrigues e em 1992 por Quintino Rodrigues, pontuam no palmarés da equipa, para além de vitórias em muitas outras competições e etapas, designadamente clássicas infelizmente já extintas como o Porto-Lisboa.

Naturalmente que alguns dos nomes referidos, para além da formação de equipas, fizeram também parte da história organizativa do concelho. Curiosamente, não são muitas as presenças da Volta a Portugal, na Feira. Mas são tradicionais as Voltas às Terras de Santa Maria, que já tiveram uma maior dimensão da que têm hoje, etapas de outras competições, alguns campeonatos nacionais e alguns Circuitos perdidos no tempo como o de Tarei (onde também chegou a existir uma equipa) ou o da Vila da Feira, onde o mestre Alves Barbosa arrebatou a vitória em 1961. A título de curiosidade, já em finais dos anos 80 se disputou na Feira (em Travanca) uma prova do então desconhecido cross-country. O parco registo fotográfico diz-nos que venceu o saudoso José Santiago, provavelmente o primeiro homem a ganhar uma corrida de cross country em Portugal.

Em 2018, o ciclismo feirense apresta-se a uma nova página. Em ano de centenário do Feirense, surgiu a vontade de regressar ao ciclismo, modalidade onde foi verdadeiramente feliz, vontade demonstrada pelo presidente Rodrigo Nunes e extravasada pelo nosso bom amigo Zé da Silva, há muito, adepto assíduo da modalidade. Com um processo similar ao do FCPorto e Sporting, numa união de esforços entre um clube sediado em Albergaria-a-Velha (anterior estrutura da LA), o Sport Ciclismo de São João de Ver, que assegurará a continuidade dos escalões de formação, e o Clube Desportivo Feirense, surge a Vito/Feirense/Blackjack, comandada por Joaquim Andrade, ele que havia sido corredor do Feirense em 1993.

Uma equipa ainda por completar, onde prevalece alguma juventude, muitos portugueses, com a figura de proa a ser Edgar Pinto e onde, como não podia deixar de ser, aparecem ciclistas feirenses: Luís Afonso e João Santos.

Transitam alguns Sub-23 da equipa de São João de Ver que, à luz dos regulamentos, não por vontade do clube, bem pelo contrário, caminhará para a extinção, cavando mais um buraco no já fragilizado escalão. Ficam salvaguardados todos os outros escalões formativos, num modelo pouco comum, ou inédito, no nosso país, associando-se uma equipa profissional a todos (ou quase) os escalões de formação.
Como sempre, entre os feirenses, as expectativas são elevadas. Não será fácil lidar com esta realidade, nem colocar um pouco de água na fervura num projecto que, apesar dos elementos históricos associados, não deixa de ser embrionário. Isto sobretudo numa terra em que, mais do que treinadores de futebol, em cada feirense há um treinador de ciclismo.

Palavras finais, porque inevitáveis, para Mário Silva e Joaquim Sousa Santos, o segundo, falecido prematuramente, protagonista de uma das várias dinastias feirenses ligadas ao ciclismo.
Luís Gonçalves