O HÁBITO DE GANHAR MEDALHAS

 

Nos últimos anos, os portugueses, adeptos do ciclismo, começam a ficar mal habituados. Naturalmente, mal habituados, pela positiva.
O medalheiro português, até há não muito tempo pouco produtivo, tem crescido substancialmente. Nos tempos que correm, muitos já acham quase normal os ciclistas portugueses terem resultados de excelência, parecendo fácil ganhar medalhas, em várias vertentes, em várias competições, em vários escalões, nomeadamente no escalão principal, onde, nos últimos cinco anos se acumularam títulos mundiais e europeus.

Mas o caminho foi longo. Quando os ciclistas portugueses dos anos sessenta e setenta viam os grandes velódromos internacionais, nas suas competições pelo estrangeiro, achavam-nos uma realidade impensável em Portugal. Nunca foi uma questão de falta de jeito, mas mais uma questão de falta de estruturas e de prática.

Já se disse várias vezes que o principal dom que teve a anterior administração da Federação, comandada por Artur Lopes, foi dotar o país velocipédico de estruturas, físicas e humanas, que permitissem aos ciclistas portugueses bater-se com mais igualdade de armas no exterior e em grandes eventos internacionais.

Mas se a Federação teve uma função importante, também não podemos esquecer-nos dos ciclistas e das equipas. Antes de ter à disposição toda a estrutura federativa (os que têm essa felicidade!), é preciso notar que são os atletas que se impõem, as mais das vezes, com ajuda dos pais ou de outros familiares e, em permanência, com a colaboração das equipas e de todos os “carolas” que, há mais ou menos anos, constroem o ciclismo e os ciclistas. Não é a Federação que descobre os talentos, são as equipas.

Muitos dos ciclistas actuais sabem aproveitar as boas condições de trabalho que têm e que foram crescendo sustentadamente. Já não há grandes segredos. Não é preciso comprar o livro do Bernard Hinault, e emprestá-lo sucessivamente a quem queria perceber algo de ciclismo e de treino. A informação é cada vez mais acessível. Às vezes tanta, que até confunde e aí será sempre preciso alguém que faça descer os mais pensadores à Terra.

As competências do ciclismo português, dos ciclistas, não nos esquecendo dos que foram desbravando importante caminho e abriram portas a estas últimas gerações com as suas boas prestações em grandes equipas internacionais, têm aumentado.
Seria bom que se continuasse a aproveitar este balanço. É bom ganhar medalhas, sobretudo em Elites. Mas para termos ciclistas no escalão principal, precisamos de benjamins, iniciados, infantis, juvenis, cadetes, juniores e até de Sub-23 (mesmo Sub-23!). Não será bom sermos encandeados pelo brilho das medalhas. Pode ser um brilho momentâneo, que demorou muito tempo a alcançar, mas que também desaparece com facilidade.
Luís Gonçalves

1 comentário a “O HÁBITO DE GANHAR MEDALHAS”

  1. “Não será bom sermos encandeados pelo brilho das medalhas.” frase com o qual concordo inteiramente.

    Mas convém ir ainda mais longe, uma vez que o ciclismo de pista esteve para terminar em Portugal aquando do término do mandato do anterior Presidente da Federação, não fosse uma energética tomada de posição do, também anterior, Presidente da Câmara Municipal da Anadia.

    Mas se permite coloco a pergunta de outra forma. E se não tivessem existido medalhas? Teríamos ciclismo de pista em Portugal? Tenho muitas dúvidas…

    Vejo com agrado hoje os detratores do passado na primeira fila a bater palmas. Vejo hoje com agrado essas pessoas a comentarem, e já com conhecimento de causa, o ciclismo de pista em público.

    Mas, e se não tivessem existido medalhas?

    Poderíamos ter ciclistas como o João Matias e o César Martingil a participar num Europeu de Elites? Poderíamos ter esses ciclistas a disputar os lugares cimeiros das provas em que participam? A dúvida persiste…

    Mas vou ainda mais longe. Se não tivesse existido a Escola Nacional de Ciclismo de Pista, teríamos tido medalhas? Teríamos o knowhow que hoje possuímos de forma clara, quer ao nível dos técnicos, quer ao nível dos ciclistas? Aqui não há dúvidas: É óbvio que não.

    Sem a aprendizagem do período da ENCP nada tinha sido possível, pelo que seria tempo daqueles que planearam o fim do Ciclismo de Pista viessem a público pedir desculpa pelo que tentaram fazer em Setembro de 2012.

    A bem do Ciclismo e de Portugal.

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