AGITAÇÃO DE MERCADO

Nos tempos que correm, cada vez com mais evidência, o ciclismo não pára. Não só as provas que continuam a fazer-se um pouco por todo o novo mundo da modalidade, umas mais conhecidas, outras quase anónimas, mas sobretudo o circo mediático que é montado à volta de acontecimentos que, até há não muito tempo, passavam algo despercebidos.

Naturalmente que o Tour, e a sua atempada apresentação, sempre suscitaram interesse na imprensa, nomeadamente, porque desde as primeiras organizações, por jornais, o foco principal, para além da criação de um evento épico, era aumentar as vendas dos mesmos, com a narração de uma história com vários e interessantes capítulos.
Mas o ponto mediático e de marketing do ciclismo parece ter atingido uma nova realidade. As redes sociais ajudam. Monta-se um circo permanente à volta de apresentações, declarações, comentários, escândalos, transferências, etapas em Israel, etapas disto e daquilo, acontecimentos verdadeiros e acontecimentos falsos. No fundo, para o melhor e para o pior, o retrato de tudo o que interessa ou dá sal a qualquer actividade actual que se pretenda lucrativa.

Longe parecem os tempos em que acabada a época, os ciclistas seguiam para a “engorda”, voltando a aparecer, alguns com nítidas dificuldades, nas primeiras corridas do ano. Mais do que nunca, actualmente, alguns ciclistas são autênticas estrelas, com permanente preocupação pela imagem, pelo seu modo de vida e pela aura, ou especulações, que se criam à sua volta.

O ciclismo português não tem fugido à regra. Acabam os campeonatos de btt, prepara-se a pista e o ciclocross, dando continuidade quase permanente à actividade competitiva, em duas rodas movidas a pedais.

Quanto ao resto, naturalmente não temos o peso do Tour, do Giro ou das grandes clássicas internacionais, nem as especulações sobre a continuidade de algumas super equipas ou ciclistas, nem as contratações da Sky ou da Movistar. Mas o que se resumia, há não muito tempo, apenas às pessoas do meio, hoje em dia extravasa no interesse sobretudo da internet e dos internautas adeptos da modalidade. Dos escalões de formação aos profissionais todos querem saber quais são as equipas, os ciclistas, as mudanças, os encontros, os reencontros e os desencontros.

As expectativas não têm sido defraudadas. No ciclismo (se calhar em tudo) os rumores são, e sempre foram, a ordem do dia. Rumores que, não raras vezes, são confirmados! O mercado agita-se, fala-se com ciclistas, com técnicos, sondam-se hipóteses, apela-se a patrocinadores, uns bem antigos, outros novos. Como sempre, descobrem-se amizades e inimizades.

Não direi que as alterações regulamentares promovidas pela Federação deram alento ao mercado deste defeso, mas lá que parecem dar animação, isso sim. Alento não dão porque, apesar da agitação, os problemas são os de sempre e outros, visivelmente, caminham para o agravamento. Fala-se de muitas equipas, mas os salários continuam escandalosamente baixos. As novas equipas, quase continentais/quase de formação, não ajudam.

De qualquer forma uma coisa é certa. As estruturas existentes, ou a existir, esforçam-se por criar um pelotão interessante. Oxalá este esforço seja acompanhado por um calendário competitivo condizente, em todos os escalões, essencialmente da responsabilidade da federação, mas também de outras estruturas organizativas. Só esta agitação de mercado, momentânea naturalmente, não chega. O ciclismo português, para se sustentar internamente com alguma dignidade, precisa de sacudidelas bem maiores. Nalguns casos até de vassouradas.
Luís Gonçalves