TOUR: “Um exemplo, enfim, para a nossa Volta a Portugal “

«  Quisemos acima de tudo privilegiar a variedade das etapas e das estradas, que se poderão revelar decisivas. Estabelecer o diálogo das montanhas  míticas com subidas inéditas, ou formatos ultra-dinâmicos, é a visão de um ciclismo inspirado muito ao nosso gosto” – palavras de Christian Prudhomme, diretor geral do Tour, na cerimónia de apresentação que decorreu ontem em Paris, perante uma plateia de 4000 convidados.

E é esta contínua inovação, que torna o ciclismo cada vez mais atraente, na busca do espetáculo e da atenção do público. Um ciclismo, contudo, que se torna perigoso, numa rebuscada “ ilimitação dos limites “, e que podem colocar uma interrogação séria, entre o que é minimamente razoável e o que ultrapassa os limites humanos.

Uma prova que procura lutar contra o domínio de uma equipa, a Sky, que congrega no seu seio, o melhor lote de ciclistas do pelotão mundial, e que abre caminho à criação de um mito, Chris Froome, que nunca o seria, tal como disse Nibali, sem o apoio de uma equipa desta estatura.

Sem grandes alternativas, os organizadores aperceberam-se deste facto, e do constante bloqueio das corridas de ciclismo, que torna a modalidade repetitiva, com fugas sem nexo, facilmente controladas pelos grandes blocos. E uma medida foi tomada, que descarateriza o ciclismo, como modalidade coletiva, diminuindo o efetivo das equipas . Um pouco como se a FIFA decidisse, para nivelar a diferença de valor entre as equipas das grandes Ligas e as de pequena dimensão, que as equipas de futebol passassem a ter apenas 9 jogadores, em vez de onze, por exemplo.

O ciclismo não se organiza, desde a sua cúpula, porque em vez de diminuir o numero de ciclistas por equipa, porque não limitam um teto orçamental máximo, para as equipas do World Tour, dando assim um tom de maior igualdade entre as diversa formações. Um teto com ordenados máximos e orçamentos controlados.

Perante a falta de uma diretriz assertiva, os organizadores vão fazendo pela vida. Menos um ciclista por equipa, o que vai levar a um maior desemprego, e etapas explosivas, curtas com muita montanha, para evitar um controlo desmesurado dos grandes blocos.

Voltando ao Tour, tema deste artigo, o organizador inventou um percurso com poucos pontos comuns, em relação ao passado, tornando a prova mais eclética, favorecendo os ciclistas completos e mais musculados. Apresenta duas etapas , autênticas provas clássicas, uma delas com 21 kms de paralelos, que vão pesar nas pernas de Froome, pouco habituado a estes problemas, duas etapas de montanha inéditas, uma com 5000 metros de acumulado e outra de apenas de 65 kms, quase sempre a subir. Depois um C/R por equipas curto, para que as diferenças não sejam grandes e um C/RI também relativamente curto, mas com um grau de dificuldade grande, com quatro subidas .

Temos, ainda um Tour que mantém montanhas épicas como o col de la Madeleine, Tourmalet, Alpe d’Huez, Croix de Fer, Aubisque, Soulor, etc, mas também  com novas subidas, ou chegadas inéditas como no col de Portet, o Plateau des Glières (6 kms a 11,2%),  Col de Romme (8,8km a 8,9% ) são alguns dos exemplos.

Um Tour que Christian Prudhomme não se cansa de incentivar à participação dos grandes nomes, em especial de Tom Dumoulin, talvez o único ciclista que, neste momento é uma verdadeira sombra para Froome .

Um  Tour que começou já a perder, e que muito teria a ganhar, com corredores da estirpe de Alberto Contador que teria, na edição deste ano, um percurso mesmo talhado para as suas caraterísticas.

Esperemos, contudo, que o Tour sirva de exemplo, para muitos organizadores, pois só através da inovação se consegue melhorar o espetáculo, tornando-o mais atrativo e dinâmico. Um Tour que não repete cidades, ano após ano, que não repete subidas, e não se confina a uma área limitada. Um exemplo, enfim, para a nossa Volta a Portugal.

JS

 

 

2 comentários a “TOUR: “Um exemplo, enfim, para a nossa Volta a Portugal “”

  1. A ignorância não é tão santa, sabendo-se como se sabe, que foi uma imposição dos três grandes organizadores que obrigaram a UCI a legislar. Em ultima instância,como é lógico é sempre a UCI que regulamenta, mas fê-lo sobre pressão da ASO, RCS e Flandres Classics.

  2. Santa ignorância quem decidiu reduzir o numero de ciclistas foi a UCI, a próxima volta a portugal só pode ter 7 ciclistas, foi a ASO que decidiu esta situação?

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