O NOVO HERÓI POPULAR

Com a saída de Rui Sousa do pelotão, claramente o ciclista mais popular dos últimos anos, fica uma vaga por preencher, num desporto que sempre viveu de heróis populares.

Se há uns anos, sem recuar muito, seria mais fácil essa “substituição”, nos tempos que correm, a tarefa afigura-se mais complicada. Há não muito tempo, noutro ciclismo português, ao contrário do que hoje sucede, a grande maioria das maiores figuras portuguesas da modalidade, corriam em Portugal, em equipas portuguesas. Havia um quase momentâneo “rei morto, rei posto”, tal era a quantidade de ciclistas já bastante conhecidos do grande público que se perfilavam para ocupar o lugar deixado em aberto, pela retirada do, ou dos maiores ídolos populares.

Ainda hoje, sem recuar aos tempos de Alves Barbosa ou Joaquim Agostinho, para a maioria da população, é mais fácil identificar Marco Chagas, Joaquim Gomes, Vitor Gamito ou Cândido Barbosa, do que qualquer ciclista do pelotão português actual.

Cada vez que começa a despontar uma figura com potencial, quase invariavelmente, faz as malas para o estrangeiro, onde, salvo raras excepções, como, cada um à sua maneira, o Rui Costa e o Tiago Machado, perdem o contacto com o grosso do público nacional. Mesmo os que regressam de longas e até bem sucedidas aventuras estrangeiras, apesar de até serem facilmente reconhecidos, acabam por não ter a empatia popular, que os que ficam e são figuras sobretudo da Volta a Portugal durante muitos anos, têm.

Não é fácil retratar esta realidade a quem acompanha em permanência o ciclismo nacional e internacional, acabando por ter uma visão diferente com um leque mais abrangente de ciclistas. Num retrato social, o grosso do público, como será natural, sente-se mais próximo de quem lhe é mais próximo. Vitor Gamito e Cândido Barbosa tiveram as suas aventuras pelo estrangeiro, mas nunca perderam o contacto com a Volta a Portugal onde, mesmo em equipas forasteiras, normalmente marcavam presença.

No contexto, é curioso reparar que um dos mais produtivos ciclistas portugueses, Acácio da Silva, é dificilmente reconhecível, até por muita gente habituada ao ciclismo. Nas gerações mais recentes, então, o desconhecimento é atroz.

O próximo e inevitável herói popular já estará no pelotão português. Ser vencedor ajuda, mas não é tudo. Para se ser popular é preciso acima de tudo carisma. Nos tempos mais próximos, vemos três ou quatro ciclistas, com esse potencial. Em qualquer dos casos, ou com qualquer opinião, o povo será sempre soberano (às vezes com uma ajudinha da comunicação social!) e sempre soube recompensar os que ficam.

Não é isto um apelo ou um elogio aos que por várias razões têm longas carreiras em Portugal. Sabe-se que no ciclismo actual a sobrevivência é difícil e a maioria das boas oportunidades estão além fronteiras. O titulo de novo herói popular português será apenas um aconchego para a alma, o verdadeiro reconhecimento popular, às vezes alheio das instâncias que governam a modalidade, da dificuldade que é ser ciclista… sobretudo em Portugal.
Luís Gonçalves

4 comentários a “O NOVO HERÓI POPULAR”

  1. Tivemos um problema de vírus, com centenas de mensagens, que nos obrigou a uma depuração do sistema, daí a situação. Naturalmente que pedimos desculpa, mas não tivemos outra hipótese.

  2. O comentário foi involuntariamente apagado, devido a problemas técnicos . Do facto pedimos desculpa .

Os comentários estão fechados.