ciclismo no feminino

 

 

Num mundo tradicionalmente de homens, sobretudo em Portugal, ao longo dos anos vão sempre surgindo mulheres no seio da modalidade.
Dos escândalos protagonizados por Oceana Zarco, no princípio do século passado, escândalo pela audácia em andar de bicicleta e até por vitórias alcançadas sobre os atletas masculinos, aos grandes sucessos de Ana Barros, com grande espírito de sacrifício, por vezes, aparecem figuras femininas de destaque no ciclismo nacional.

Naturalmente que não são muito comuns. A referência é quase sempre feita, ainda hoje, a Ana Barros, essencialmente pelo mediatismo que alcançou em finais do século passado, pelas vitórias, pela participação em mundiais, sobretudo pela participação olímpica, a única até hoje, num tempo em que uma equipa profissional (masculina!) se podia dar ao luxo de ter também uma equipa feminina.

Terão sido os anos dourados do ciclismo feminino, diz-se por aí. Depois veio um pouco o marasmo. No contexto, o surgimento e o crescimento do Btt, sobretudo o xc (antes de ser olímpico), acabou por trazer um novo fôlego ao ciclismo feminino, essencialmente porque qualquer atleta feminina, da mais nova à mais antiga, tinha acesso a um calendário mais vasto, e a uma logística e estrutura de equipas que, apesar de tudo, é mais acessível no xco.

Foram tempos de lutas, tanto no xco, como na estrada, onde iam partilhando títulos, entre a Irina Coelho, Sandra Araújo, Ana Vigário, Cláudia Vitorino e, partilhando poucas vitórias com as outras, a Isabel Caetano, provavelmente a mais versátil das atletas femininas que já competiram em Portugal, alcançando vitórias em quase tudo o que era vertente da modalidade. Se fosse belga ou holandesa, com probabilidade, teria uma boa carreira no ciclocross.

Também não será alheio ao crescimento de praticantes de início de século, para além do alargamento de vertentes, a mudança progressiva de mentalidades. Felizmente, é hoje muito mais natural, ver uma mulher a treinar na estrada e, note-se, incorporada num grupo de homens. Há uns anos passei bastantes dos meus treinos em companhia feminina. Só quem por lá passou, sabe o que ouviam uns e outros!

Apesar de ter chegado a um bom número de praticantes, o ciclismo feminino português mantém-se volátil. Como sempre, por vezes lá aparece uma nova atleta que se destaca, remando um pouco (ou bastante) contra a maré. Uma maré que já deveria estar mais a favor entre portas. O crescimento da vertente feminina é exponencial pela Europa. Até já a CPA, associação internacional de ciclistas, tem uma secção que se dedica em exclusivo às femininas. As marcas apostam cada vez mais na venda de produtos destinados ao público feminino, e há uma tendência para tentar atrair este “novo” público à modalidade, quer como praticantes, de lazer essencialmente, quer como espectadores.

Temos algumas equipas com atletas femininas, normalmente na formação, juntamente com jovens masculinos. Não é fácil, para as equipas, onde os recursos financeiros e humanos são tendencialmente escassos, conciliar calendários que constantemente se cruzam, em locais diferentes e bem distantes entre si. Seria bom a federação prestar atenção a isso. No momento, parece-me existir uma equipa exclusivamente feminina. Mas, e não me levem a mal, tem a pirâmide etária um bocadinho invertida.

Há abertura, pelo menos em palavras, e o tempo será de incentivo. Nunca tivemos tantas mulheres no ciclismo. Já é normal discutir algo com uma comissária (embora algumas ainda tenham uma forma incorrecta de se tentarem defender num mundo masculino, perdendo facilmente a ponderação!) e, mais recentemente, com a primeira mulher a liderar uma associação de ciclismo. Seria bom aproveitar uma conjuntura favorável e desenvolver definitivamente e de forma séria o ciclismo feminino na vertente desportiva. O que se tem feito tem parado abruptamente nos escalões de formação, ainda bem cedo. Depois é o salve-se quem puder. São os exemplos que temos tido. A cada época lá aparece a mais relevante ciclista, com o mesmo discurso de anos, tentando rumar contra a forma de fazer as coisas. Invariavelmente, são proscritas.

Como muitos outros desportos, é certo e sem ilusões ingénuas, que o ciclismo será sempre um meio preenchido por homens, mas não podemos passar ao lado desta nova oportunidade de expansão da modalidade, ainda por cima quando temos uma atleta feminina no escalão superior da UCI, no ciclismo de estrada. Não a levar a um mundial, ou não preparar uma nova participação olímpica, extensível a outras, obviamente, participações que normalmente, por inspiração, abrem caminho a novas atletas, é recusar, quer se goste ou não, uma era moderna da modalidade.
Luís Gonçalves

Num mundo tradicionalmente de homens, sobretudo em Portugal, ao longo dos anos vão sempre surgindo mulheres no seio da modalidade.
Dos escândalos protagonizados por Oceana Zarco, no princípio do século passado, escândalo pela audácia em andar de bicicleta e até por vitórias alcançadas sobre os atletas masculinos, aos grandes sucessos de Ana Barros, com grande espírito de sacrifício, por vezes, aparecem figuras femininas de destaque no ciclismo nacional.
Naturalmente que não são muito comuns. A referência é quase sempre feita, ainda hoje, a Ana Barros, essencialmente pelo mediatismo que alcançou em finais do século passado, pelas vitórias, pela participação em mundiais, sobretudo pela participação olímpica, a única até hoje, num tempo em que uma equipa profissional (masculina!) se podia dar ao luxo de ter também uma equipa feminina.
Terão sido os anos dourados do ciclismo feminino, diz-se por aí. Depois vei-o um pouco o marasmo. No contexto, o surgimento e o crescimento do Btt, sobretudo o xc (antes de ser olímpico), acabou por trazer um novo fôlego ao ciclismo feminino, essencialmente porque qualquer atleta feminina, da mais nova à mais antiga, tinha acesso a um calendário mais vasto, e a uma logística e estrutura de equipas que, apesar de tudo, é mais acessível no xco.
Foram tempos de lutas, tanto no xc, como na estrada, onde iam partilhando títulos, entre a Irina Coelho, Sandra Araújo, Ana Vigário, Cláudia Vitorino e, partilhando poucas vitórias com as outras, a Isabel Caetano, provavelmente a mais versátil das atletas femininas que já competiram em Portugal, alcançando vitórias em quase tudo o que era vertente da modalidade. Se fosse belga ou holandesa, com probabilidade, teria uma boa carreira no ciclocross.
Também não será alheio ao crescimento de praticantes de início de século, para além do alargamento de vertentes, a mudança progressiva de mentalidades. Felizmente, é hoje muito mais natural, ver uma mulher a treinar na estrada e, note-se, incorporada num grupo de homens. Há uns anos passei bastantes dos meus treinos em companhia feminina. Só quem por lá passou, sabe o que ouviam uns e outros!
Apesar de ter chegado a um bom número de praticantes, o ciclismo feminino português mantém-se volátil. Como sempre, por vezes lá aparece uma nova atleta que se destaca, remando um pouco (ou bastante) contra a maré. Uma maré que já deveria estar mais a favor entre portas. O crescimento da vertente feminina é exponencial pela Europa. Até já a CPA, associação internacional de ciclistas, tem uma secção que se dedica em exclusivo às femininas. As marcas apostam cada vez mais na venda de produtos destinados ao público feminino, e há uma tendência para tentar atrair este “novo” público à modalidade, quer como praticantes, de lazer essencialmente, quer como espectadores.
Temos algumas equipas com atletas femininas, normalmente na formação, juntamente com jovens masculinos. Não é fácil, para as equipas, onde os recursos financeiros e humanos são tendencialmente escassos, conciliar calendários que constantemente se cruzam, em locais diferentes e bem distantes entre si. Seria bom a federação prestar atenção a isso. No momento, parece-me existir uma equipa exclusivamente feminina. Mas, e não me levem a mal, tem a pirâmide etária um bocadinho invertida.
Há abertura, pelo menos em palavras, e o tempo será de incentivo. Nunca tivemos tantas mulheres no ciclismo. Já é normal discutir algo com uma comissária (embora algumas ainda tenham uma forma incorrecta de se tentarem defender num mundo masculino, perdendo facilmente a ponderação!) e, mais recentemente, com a primeira mulher a liderar uma associação de ciclismo. Seria bom aproveitar uma conjuntura favorável e desenvolver definitivamente e de forma séria o ciclismo feminino na vertente desportiva. O que se tem feito tem parado abruptamente nos escalões de formação, ainda bem cedo. Depois é o salve-se quem puder. São os exemplos que temos tido. A cada época lá aparece a mais relevante ciclista, com o mesmo discurso de anos, tentando rumar contra a forma de fazer as coisas. Invariavelmente, são proscritas.
Como muitos outros desportos, é certo e sem ilusões ingénuas, que o ciclismo será sempre um meio preenchido por homens, mas não podemos passar ao lado desta nova oportunidade de expansão da modalidade, ainda por cima quando temos uma atleta feminina no escalão superior da UCI, no ciclismo de estrada. Não a levar a um mundial, ou não preparar uma nova participação olímpica, extensível a outras, obviamente, participações que normalmente, por inspiração, abrem caminho a novas atletas, é recusar, quer se goste ou não, uma era moderna da modalidade.
Luís Gonçalves