MODELOS DE FORMAÇÃO – “Não será justo que uma equipa que se diz de formação, possa ter características diferentes dos seus pares “

Não há muitas equipas em Portugal que permitam ao ciclista fazer todo o seu percurso formativo no seio da mesma estrutura, do mesmo clube. Se não me falham as contas, serão apenas três (ou quatro!), números relacionados com o ciclismo de estrada, existindo em mais quantidade formações no xco, que permitem a mesma façanha.

Mas na estrada, onde as estruturas têm obrigatoriamente de ser diferentes, mais complexas, são poucos os atletas que podem ter esse “luxo”. Muitos, ainda em período formativo, não compreendem essa vantagem.

São normalmente estas equipas que acolhem o grosso dos Sub-23 de primeiro ano, alguns oriundos da sua própria formação de Juniores, dando-lhes rodagem efectiva, em provas relevantes, com oportunidades iguais, não sendo mais um número para a equipa. Permanecem muitos, também, no chamado terceiro ano de Junior e, neste caminho, alguns que pareciam condenados ao insucesso e ao abandono da modalidade, até acabam por dar bons ciclistas ou pelo menos razoáveis.

É destas equipas que com mais frequência transitam os grandes craques Sub-23, que dão muito trabalho a “construir”, para as mais conceituadas e acarinhadas equipas de formação no escalão.

No contexto, seria muito mais simples, a qualquer uma dessas três, ou quatro, equipas, concentrarem esforços, nomeadamente financeiros (sempre escassos!), num só escalão, que tanto podia ser o de Sub-23, como o de Juniores ou Cadetes, e ter uma equipa para se bater sempre pelos primeiros lugares.

No entanto, estas equipas, com mais ou menos dificuldades financeiras, passando melhores ou piores tempos estruturalmente, têm-se recusado a isso, porque continuam a entender que a formação é algo bastante mais vasto do que se quer fazer parecer. E, diga-se, é.

Olhar para a formação só para o sentido que se quer, ou para o momento, marginalizar quem não merece, até por forma a mitigar outros problemas, pode ser ver mal a essencial sustentabilidade da formação.

A título de exemplo, para que se enquadre melhor o texto, a Maia, quase que foi uma equipa excomungada do nosso panorama. A muito custo e contra muita gente, sobreviveu, e é hoje, uma das tais equipas que, com muito mérito, tem desde os escalões mais jovens, aos Sub-23. Mas não é por causa disso que deixará de ser enquadrada nos “patinhos feios” do escalão de esperanças.

O esquema que permite a alguns brilhar e a outros trabalhar, desde cedo e com poucos recursos, é enganador e desproporcional, sobretudo porque o modelo imposto é limitador para todos os intervenientes.

Não será justo que uma equipa que se diz de formação, possa ter características diferentes dos seus pares. Ou é, ou não é. E se não é, que cumpra os critérios do profissionalismo. Não os cumprindo também é desleal para com quem os cumpre, e não é nada fácil cumpri-los.

Ter um pelotão para fazer monte, com ciclistas híbridos que não sabem o que são, com perigosos salários ainda mais miseráveis (há muito pouco a perder…), até pode dar um sinal de festa às localidades por onde a caravana passará, mas transmite uma péssima mensagem para dentro da modalidade.

Parece que se tenta salvar o pelotão profissional, à verdadeira custa de quem faz realmente formação e, mais tarde ou mais cedo, apesar de se dizer o contrário, à custa da juventude. Qualquer pirâmide etária tem um modelo fundamental. O ciclismo não pode fugir a isso, sob pena de desmoralizar a maioria, onde por vezes estão os talentos ocultos.
Luís Gonçalves