OS MUNDIAIS E AS OPÇÕES TÉCNICAS

Embora para alguns pensar pareça provocar alguma confusão, ou pelo menos pensar de forma diferente, como qualquer grande evento, este campeonato do mundo, pôs-nos a pensar sobre alguns destinos da modalidade. Pensar interna e externamente.

Em Bergen, foi visível o sucesso da organização com o público, especialmente quando comparado com os mundiais anteriores. Neste contexto, é bom que os novos senhores da UCI, outra das novidades deste mundial, compreendam que, bem ou mal, no mundo em que vivemos, a imagem é metade do sucesso. Bergen, deu um exemplo de vida e saúde à modalidade.

Se neste campo o ciclismo sai fortalecido, no campo puramente desportivo surgem situações que provocam dúvidas. Não há nada a apontar à prova de fundo, umas vezes mais plana, outras não, ampliando o lote de potenciais vencedores a mais ciclistas, todos com características diferentes.

Mas no contrarrelógio, onde temos um tipo de ciclista com determinadas características, o “especialista”, talvez seja um exagero o que se testou nestes mundiais e se prepara para ser pior para o ano. Naturalmente que a tal imagem também é mais vendável neste tipo de percursos, e ninguém quer sempre contrarrelógios maçadores, mas a manter-se este tipo de perfil, há o enorme risco, que ninguém desejará, de afastar os principais especialistas, aqueles que todos querem ver, em grande número, a debater o título, um título que não é de melhor trepador, de rampa, nem do mais combativo.

Do contrarrelógio, sai aos portugueses a melhor prestação. Nelson Oliveira é, desde muito jovem, uma opção técnica óbvia para a especialidade. Sem surpresas, ocupou uma das duas vagas previstas para Portugal. Durante a sua prova, mais ou menos fãs de Froome, penso que todos os portugueses desejaram um pequeno problema mecânico ao britânico. A quase medalha não tira brilhantismo ao Nelson, bem pelo contrário, mas depois de o vermos sentado tanto tempo na “poltrona”, deixa-nos um sabor agri-doce.

Se uma das vagas é consensual, a outra pode-nos deixar a pensar, sem existir problema nenhum com isso. Dirão alguns que podia ser uma hipótese diferente, quer lançando mão dos que já lá estavam, quer, com antecedência, preparando outros para o desafio.

No contexto, continuo sem perceber, porque não vão à selecção alguns ciclistas. Não só aos mundiais. Há vários factores que podem determinar o sucesso de uma corrida e alguns ciclistas, ao longo do ano, dão mostras de poderem representar a selecção.

Parece-me que, por vezes, mesmo em relação a alguns convocados, são escolhidos momentos errados. Quem acompanha o ciclismo o ano inteiro deveria perceber esses momentos, sobretudo tendo em consideração o escalão Sub-23, onde é mais difícil fazer uma selecção. Há ciclistas que foram ao campeonato da Europa e, naquele momento, não deveriam ter ido, e outros que foram ao campeonato do mundo e seria mais curioso vê-los no campeonato da Europa, onde não estiveram.

Serão sempre opções técnicas, justificadas, naturalmente, mas que ainda assim podem ser criticáveis. São os inconvenientes da democracia.

E no espírito democrático, volto a dizer que é incompreensível, não termos nenhuma representante feminina no principal escalão, neste mundial. Num mercado crescente, assinalado aliás pelo presidente da federação em entrevista recente, Portugal, como nação que tem visivelmente crescido na modalidade, não pode ficar alheado desta nova realidade. A maior candidata seria a Daniela Reis, e a situação não enquadra uma boa mensagem para a Maria Martins, ou para todas as ciclistas mais jovens.

Mais do que o escudo confortável da opção técnica, muitas vezes será preciso expor a posição que se assume, com frontalidade. De certeza que concordaríamos com algumas opções que agora achamos estranhas e discordaríamos fundamentadamente de outras.

O que se evita com argumentações demagógicas e tendenciosas, especulações construídas à volta de teias de interesses, com vários interessados, é uma discussão aberta em que se podiam pôr a nu inúmeros defeitos, mas também reconhecer algumas virtudes. Há um medo terrível de tentar conciliar ou pelo menos ouvir opiniões, ainda por cima, do xco à estrada, num meio tão pequeno.

Para que não restem dúvidas, a crítica é geral. Fala-se muito no ciclismo, mas muito pouco abertamente. Não há piores “segredos” do que aqueles que toda a gente sabe… normalmente distorcidos.
Luís Gonçalves