DA SURPRESA À CERTEZA NOS MUNDIAIS

Alfredo Binda

Corria o ano de 1927 quando o italiano Alfredo Binda se tornou o primeiro campeão do mundo de ciclismo. Nas provas de fundo, ao longo dos anos, o domínio de algumas nações é evidente. Nos primeiros anos, muitos italianos, como Binda, naturalmente vários belgas, franceses, alguns holandeses, suíços, e até alemães.

Sobretudo as quatro primeiras assinaladas (Itália, Bélgica, França e Holanda) nações tradicionalmente ligadas ao ciclismo, sendo muitas vezes consideradas o berço da modalidade.

Mas o campeonato do mundo, como qualquer prova de um dia, traz-nos sempre novas zonas do globo para a ribalta. Em muitas situações não se poderão considerar vencedores surpresa, os ciclistas, dada a sua já reconhecida qualidade. A maior surpresa vem, muitas vezes, dos países que representam ou representavam, muitos, com pouca ou nenhuma afinidade com o ciclismo.

Neste contexto, pode-se assinalar a vitória de Tom Simpson em 1962, defendendo as cores de uma Grã-Bretanha, que agora até é uma potência na modalidade, mas que há altura pouco constava do mapa. Também os Estados Unidos, pela mão de Greg Lemond, em 1983, surgiam como uma nação embrionária na modalidade, a que muito poucos prestavam atenção, e que hoje, é uma das principais representadas nos principais escalões do ciclismo mundial. Stephen Roche, também deu uma improvável vitória à Irlanda. Não por ele, obviamente, mas pelo país.

É curioso reparar que um dos países que sempre foi referência na modalidade, a Espanha, apenas venceu o seu primeiro mundial em 1995, com Abraham Olano, num pódio de luxo onde também constavam Indurain e Pantani. Depois desta, repetiram-se várias vitória para “nuestros hermanos”.

De anos mais recentes, talvez o sucesso menos esperado tenha sido o do letão Romans Vainsteins, em 2000, ciclista que passou algumas vezes pelo nosso país, nomeadamente na Volta a Portugal.

Pelos últimos dez títulos, encontramos um australiano, Cadel Evans, resultado que já consideramos normal, mas que se fosse obtido há trinta ou quarenta anos, para não recuar mais, seria quase um escândalo. Nestes quatro anos mais próximos, as mais tradicionais nações da modalidade, estão arredadas da vitória como nunca estiveram. A expressão tem sido de Portugal, Polónia e da Eslováquia.

Continua a faltar a vitória sul americana ou a talvez bem mais distante vitória asiática. África já ficará no meio termo. Não tem a força da América do Sul, longe disso, mas começa a ter no pelotão uma representatividade inesperada até há bem pouco tempo.

Assinalaram-se países de tendência colonial, ou que resultaram do desmembramento de outros que em algumas situações já tinham algumas raízes no ciclismo, mas, no fundo, considerando o mapa actual, o campeonato do mundo de ciclismo (de fundo, por ser mais tradicional e antigo o que permite uma comparação mais abrangente) tem servido para isso mesmo: “para dar novos mundos ao mundo” e para percebermos que a geografia do ciclismo, apesar de continuar concentrada na Europa, tem mudado com alguma rapidez. A tendência será continuar, e termos cada vez menos surpresas e cada vez mais certezas em relação aos novos territórios da modalidade, obviamente, sem esquecer os mais tradicionais.
Luís Gonçalves