OS RATOS DA MONTANHA

Quando nada de especial existe a assinalar ou não acontece nada digno de registo no exercício de uma actividade, costuma-se dizer, em sentido figurado e em bom português, que “a montanha pariu um rato”.

Nos últimos tempos, também pelo ciclismo, as montanhas só parecem “parir” ratos. De facto, entre os principais contendores pela classificação geral, as grandes montanhas, já foram mais decisivas nas grandes voltas. Mais depressa uma pequena colina inclinada provoca diferenças de tempo significativas do que uma subida de 20 km.

Não há muito tempo, eram essencialmente as grandes e míticas subidas que decidiam as competições. Eram comuns diferenças de tempo que ultrapassavam largamente a casa dos segundos e chegavam aos minutos.

Naturalmente que o contrarrelógio sempre teve influências decisivas. Era, nomeadamente, a principal a arma de Indurain. Aguentava-se nas subidas e trucidava na luta contra o tempo, normalmente em contrarrelógios com alguma extensão, de vários quilómetros, que compensavam muitas vezes as diferenças de tempo provocadas pelas subidas.

Pese embora o assinalado, desde sempre, a importância do contrarrelógio, esta especialidade tem vindo a ser, com mais visibilidade, o factor decisivo nas grandes vitórias.

As grandes diferenças têm estado reservadas para o esforço individual. Por exemplo, num só dia, Froome pode acrescentar mais tempo aos seus adversários do que em todos os quinze dias anteriores e gerir essa diferença nos restantes. Isto numa competição como a Vuelta, que praticamente só tem montanha.

Nas grandes subidas os ciclistas parecem mais equilibrados, ou com mais medo das grandes equipas. Para alguns é uma questão de “tomates”. Talvez. Para outros uma questão táctica e científica a que teremos que nos habituar. Prefiro a primeira, a dos “tomates”, porque sempre nos traz alguma esperança na modalidade.

Com isto não se quer dizer que, depois do contrarrelógio, faltando tanta e tão dura montanha, os ciclistas não nos surpreendam. Espero que sim. Não será muito provável se, no CRI Froome der uma “cabazada” aos outros. Pensarão todos já no segundo lugar e no pódio. Farão uns pequenos ataques a olhar para trás e para baixo. De qualquer maneira, só Contador olha para a frente e para cima.
Luís Gonçalves