a Volta tem de estar contente com o povo português que não lhe virou as costas

Passou como um ápice. De Lisboa até Viseu, calcorrearam-se montes e vales, levou-se o encanto em  segundos, a pequenas e pacatos vilas e aldeias de Portugal, aglutinando à sua volta milhares e milhares de pessoas, entusiastas do ciclismo.

Dizem que a beleza e as dificuldades do ciclismo estão centradas no norte do país, onde o público acorre às estradas em maior numero, onde os montes são montanhas e onde o verde é mais verde. Talvez seja verdade, mas a Volta tem de estar contente com o povo português que não lhe virou as costas. É certo que as experiências dão sempre mau resultado, especialmente no ciclismo. A organização desta Volta não esteve com o povo, na etapa da Senhora da Graça, transformando o que era uma festa, uma tradição popular, num imenso deserto.

Leva um pouco a compreender que a estratégia organizativa não leve a sério estes pormenores, em que as duas etapas mais emblemáticas da prova sejam disputadas em dias de semana, afastando o público e dando uma má imagem em termos de adesão popular. Uma situação a rever, já na próxima edição, a não ser que o que se pretenda seja isso mesmo, afastar o povo do ciclismo.

Em termos organizativos a Volta esteve, como é seu costume, num patamar muito superior a qualquer outra organização de âmbitos nacionais, em todos os capítulos. Desde a segurança, apoios às equipas em prova, estrutura organizativa, mas apesar do balanço ser positivo, peca em aspetos em que pode e tem de melhorar.

Por exemplo: não existe uma caravana publicitária. Dá trabalho, mas nada se faz sem isso mesmo, trabalho. A animação da Volta, nas partidas e chegadas é muito fraca e repetitiva, faltando-lhe inovação. Uma animação que se limita a distribuir brindes, sujeitando as pessoas a longas filas de espera. Será isto uma animação ?

Num evento como este espera-se mais, ou pelo menos, exige-se mais, de forma a transformar a Volta num grande espetáculo desportivo, mas acima de tudo transformando o evento numa grande festa popular, talvez a maior do nosso país.

No plano desportivo, a Volta esteve bem ? É difícil uma resposta assertiva. Se repararmos o 14º da geral já aparece a cerca de 30 minutos do primeiro classificado, o que poderá indiciar duas coisas: que a prova foi extremamente difícil, o que não foi o caso, ou que o pelotão pode ser fraco.

Das duas respostas inclinamo-nos mais para a segunda hipótese. O pelotão é fraco, ou estará mal preparado para uma prova desta grandeza ?  Aqui também, inclinamo-nos para a segunda hipótese. A maior parte dos ciclistas que nos visita não teve uma preparação adequada para competir com adversários que concentram o seu ímpeto competitivo, apenas na Volta a Portugal.

Apesar de ter sido uma das Voltas mais “suaves” dos últimos anos, não nos lembramos de uma edição que tenha tido no seu percurso, apenas duas contagens  do PM de 1ª categoria, era visível que o pelotão se partia em dois quando as dificuldades eram maiores : na frente os portugueses, na retaguarda os estrangeiros.

Temos assim, que um percurso mais duro beneficiava um maior nível competitivo, para as equipas lusas, mas se o percurso fosse um pouco mais duro, talvez a legião estrangeira no final, em Viseu, estivesse bastante reduzida.

Será a solução convidar equipas mais fortes ? Pensamos que não. O resultado será idêntico, ou até mesmo pior. Porquê ? Porque poucos ciclistas e poucas equipas estão motivadas para correr uma prova em que  sabem que vão encontrar duras dificuldades : calor, um percurso duro e  bons ciclistas locais. Esta é a razão para a qual as equipas e ciclistas portugueses tanto brilham na sua prova rainha.

Muito trabalho concentrado para a única prova que dá retorno, aos milhares de euros investidos pelas equipas., por isso ciclistas e equipas apostam tudo na Volta e compreende-se, face à pobreza franciscana  e mediática da grande maioria das provas lusas.