WATTS A MAIS, CICLISMO A MENOS

A cada ano, quando acaba o Tour, ficamos um pouco órfãos de ciclismo. Durante o Tour, podemos criticar ciclistas, táticas ou a forma como a prova se desenrola, a organização, desesperar nas etapas sem interesse ou por uma prova com cada vez menos interesse. Tudo nos ocorre durante três intensas semanas. No fim, fica um vazio, e sempre, sempre, uma ansiosa espera pelo próximo. Por mais chato que seja é esta a verdadeira magia do Tour. Por isso mesmo nunca deixará de ser a maior prova velocipédica do mundo.

Mas o Tour, como barómetro do ciclismo mundial, vai-nos dando alguns sinais pouco positivos. Embora seja um espetáculo cada vez maior e com cada vez mais visibilidade, os puristas, não podem deixar de ter alguma vocação critica em relação a esta nova era, que não começou agora, mas há uns bons anos, com Armstrong e a US Postal.

O que Armstrong e a Postal trouxeram de novo ao ciclismo, de forma exponencialmente visível, foi a ciência e a tecnologia. Perceberá o bom leitor que não se refere a ciência médica mal intencionada, essa é antiga e bem anterior às más intenções da Postal e já era vulgar nos Estados Unidos, por exemplo. Fala-se da ciência médica que controla todas as pedaladas da vida de um ciclista, e da tecnologia que passou a ser incorporada nas bicicletas e nos métodos de treino e aperfeiçoamento.

Ou seja, dados meteorológicos, túneis de vento, ensaios de vários materiais, enfim, algo muito próprio da tecnologia aeroespacial, que se vulgarizou na fórmula 1, e se estendeu ao ciclismo.

Ligada à evolução dos computadores e outros sistemas de espécie informática, surgiram também medidores de frequência cardíaca, cadência, potência, os proclamados Watts.

Já em idos de 90 do século passado, o nefasto Dr. Ferrari, para além de ter os tais regimes suplementares de recuperação, trabalhava com todos estes dados em treino, quando poucos ainda os utilizavam. Também à conta disto, se calhar sobretudo com esta metodologia, “criou” verdadeiras máquinas. Sem querer branquear nada, há sempre a tendência para só nos lembrarmos do que é verdadeiramente mau.

Também a Postal, sagazmente, trouxe como ninguém, outra forma de controlar as corridas e os adversários. Com muito dinheiro, é possível ter a melhor equipa, inclusive, contratar as possíveis ameaças a uma futura vitória. Roberto Heras, ganhou quatro Vueltas, mas não ganhou o Tour. Com a melhor equipa, como em qualquer desporto, o caminho da vitória é mais fácil.

De ano para ano o Tour torna-se menos interessante. É certo que há muito em jogo, mas chegarmos ao ponto de até um espetador pouco habitual do ciclismo conseguir prever o que vai suceder em quase todas as etapas, é preocupante. A corrida rendeu-se em demasia à tecnologia e a táticas previsíveis, porque demasiadamente dependentes dessa tecnologia, de várias formas de tecnologia, onde não incluo as comunicações de rádio. Essas não nos dão dados tecnológicos “obrigatórios”, dependem de quem as faz e de quem as ouve.

Quando numa das etapas de montanha Froome teve uma avaria, chegando a estar a cerca de 50 segundos do principal grupo, 15 ou 20 desses segundos forma perdidos a acertar o seu mini computador na nova bicicleta, com os tais dados sem os quais agora ninguém parece saber pedalar. Este luxo só aconteceu porque no tal grupo também todos estavam reféns dos seus próprios dados e sem espírito inventivo.

Parece que até um louco queria mudar, agora, o estilo de pedalada de Contador, tornando-o mais otimizado e atual. Se for para isto, deixem continuar o homem a atacar quando quer e enquanto puder, mesmo que corra mal.

A crítica não é à utilização de todas estas ferramentas, obviamente úteis, em treino. Mas contra a sua utilização excessiva em corrida e à qual todos mais tarde ou mais cedo acabam por se render… até Aru ou outros ciclistas com o seu perfil. Ou isso, ou a UCI, impõe regras, como fez a FIA na Fórmula 1, desporto que se tornava demasiadamente desinteressante e que acabou por recuperar algum fôlego.

Pode-se dizer que é outro ciclismo mas se Vinokourov ligasse em demasia aos Watts, nunca ganharia nos Campos Elíseos, e nunca falaríamos na sua vitória, como um dos verdadeiros acontecimentos do ciclismo, nem via-mos as camisolas amarelas de Voeckler, de que tanto se fala. Deste Tour, para além dos vencedores, de pouco ou nada nos recordaremos. Fora da normalidade, o pouco sal veio da expulsão de Sagan e do ímpeto de Aru, que se pode pagar caro na era dos Watts. Vamos lembrar-nos da postura de Landa, como de tantos outros vencedores, da quarta vitória de Froome, provavelmente a última, assinalando que desta vez fez o percurso todo de bicicleta e, da Sky, que não inventou nada.
Luís Gonçalves