O PÚBLICO DO TOUR

Já se sabe que nenhuma outra corrida do mundo tem tanto público. Aliás, extravasando o ciclismo, poucos ou nenhuns desportos terão tanto público, sobretudo ao vivo, como o Tour.

Como em qualquer multidão, também já se sabe que uns são cumpridores e outros nem por isso. No Tour, muitos querem apenas aparecer na televisão, dizer “adeus” ao helicópetro, fazer publicidade, mandar o Relvas estudar ou, de formas mais ou menos interessantes, disfarçarem-se de qualquer coisa ou colocarem-se em locais imprevistos.

Mas estas multidões têm algo pior. A grande maioria dos presentes, até na nossa Volta, não percebe nada de ciclismo. Até aqui, tudo bem, é normal. Porém, quando Froome ficou separado do grupo de Bardet, por avaria, teve que enfrentar a inusitada ira dos adeptos. Muitos “Buuus”, muitos apupos, muitos gestos, muitas palavras feias, não existiu urina ou outras coisas mas não terá faltado vontade.

Há a tendência para dizer-mos que é a malta do futebol, bem mais habituada ao estilo. Será exagerado. São, isso sim, anti desportistas. Tanto faz estarem no futebol, como no ciclismo, no basquete, no hóquei ou na ginástica artística.

Não se pode também isentar de culpas a malta do ciclismo. Já se decidiram corridas (noutros tempos) com a intervenção direta do público. Apesar de tudo até tem melhorado.

Mas, independentemente de sermos fãs ou não, quando vemos um homem em esforço, no fundo, no seu local de trabalho, a estrada, sem fazer mal a ninguém, e assistimos a uma despropositada ira, cólera, estupidez, no olhar de alguns presentes na berma da estrada, só podemos achar estranho.

Mais estranho, e preocupante, é descortinarmos uma criança pelos seus inocentes dez anos, na mesma figura, com toda a certeza incentivada, pelo pai, tio, irmão, primo, enfim, um ignorante qualquer, que de certeza choraria se lhe fossem fazer o mesmo ao seu local de trabalho.

Agora que temos a nossa Volta à porta, cheia de paixões clubistas (até para os que não estão presentes e não têm, de momento, nada a ver com o ciclismo, embora gostem de dar opinião sobre os que estão, com mérito, na estrada), não vamos ser ignorantes.
Luís Gonçalves

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *