DE PARIS PARA O MUNDO

 

Quando em Portugal nos preparamos para acolher e conhecer os mais jovens vencedores, ora na Volta a Portugal do Futuro, ora nos campeonatos nacionais de juniores e cadetes (e Elites femininas), as atenções mundiais viram-se, naturalmente, para a Volta a França.

Sabemos agora que o Tour é um dos mais mediáticos espetáculos mundiais, ultrapassando mesmo o puro âmbito do mundo desportivo. Há volta do Tour tudo se vende e existe um mercado turístico em expansão. De todo o mundo se desloca gente a França, individualmente ou em grupos organizados, para ver o Tour o que, claro, também significa muita confusão e muitos espectadores pouco habituados a ver corridas ao vivo.

Mas se hoje reconhecemos todo este show, quando em 1903 Henri Desgrange idealizou a prova ninguém sabia muito bem o que esperar desta nova aventura. Nos tempos que correm o maior sonho de qualquer ciclista será participar no Tour, mas na primeira edição foram precisos vários impulsos do organizador, sobretudo de cariz monetário, para poder ter uma lista de participantes condizente com tão nobre desafio.

A lista de prémios, para o ciclismo, continua choruda. Esta é uma das características que sempre se manteve. Já não há bicicletas de ferro, caminhos de terra, ciclistas a colher água nas fontes ou das bermas da estrada, “assaltos” a frigoríficos de habitações, muito menos ciclistas a dormir ao relento durante o percurso como sucedia com frequência nas primeiras edições, nem regulamentos estranhos que obrigavam os ciclistas a começar e a terminar com a mesma roupa que tinham vestido no início da etapa (enfim, numa partida de madrugada, com frio, que terminasse ao final do dia, passando toda aquela hora do calor de Julho nas montanhas francesas, ter sempre uma camisola de lã vestida não devia ser agradável!).

Tantos anos e tantos quilómetros dão-nos muita história. Muitos vencedores, muitos vencidos, mortes, greves, quedas, lutas políticas, muitos cromos, inovações nas bicicletas e no formato das corridas e tantos heróis como escândalos. Já em 1904, na segunda edição, foram desqualificados doze ciclistas, entre os quais o primeiro grande herói do Tour, Maurice Garin.

Ninguém os quer, os escândalos, mas os grandes eventos também são feitos disso. Porventura, o golo mais famoso da história do futebol será a “mão de Deus” de Maradona a que se somarão todas as tropelias do craque enquanto profissional da bola. Não é por isso que Maradona deixa de ser um herói, ou que a Argentina deixou de ser campeã do mundo em 1986.

Tal como de Dusseldorf em 2017, onde apesar de tudo já todos sabem ao que vão, a um de Julho de 1903, algumas dezenas de aventureiros saíram de Paris, para o mundo, sem saberem que o faziam.

E, ao fim de tantos anos, quando pensamos que já nada nos pode surpreender no Tour, eis que nos aparece o camisola amarela a correr a pé no meio da multidão…
Luís Gonçalves