A VOLTA A PORTUGAL DE OLDEMIRO CÉSAR, MANUEL DE OLIVEIRA E TANTOS OUTROS

Cumpridos 90 anos desde a primeira edição da Volta a Portugal em Bicicleta, como muitos saberão com o traçado inspirado na Volta a Portugal a Cavalo, torna-se necessária, ainda que com a brevidade que o texto obriga, a lembrança de quem também ajudou a construir este fenómeno desportivo que, apesar de identificado com o Verão, começou na Primavera.

A lembrança refere-se aos jornalistas e demais profissionais da área da comunicação. Ao longo dos anos centramos naturalmente as nossas atenções nos feitos alcançados pelos ciclistas, ou até pelas organizações, mas com regularidade esquecemo-nos dos principais veículos de transmissão e construção desses feitos. Não sou jornalista, nem tenho relações de afinidade especiais com o jornalismo, mas também sei dar o braço a torcer.

Ora, em 1927, quando as reportagens jornalísticas eram autênticos tratados históricos a roçar a literatura, apresentaram-se nos Restauradores e em representação dos jornais organizadores, Oldemiro César pelo Diário de Notícias e Mário de Oliveira pelo jornal Os Sports.

Se hoje temos uma visão do que foi a primeira de muitas Voltas a Portugal, devemo-lo essencialmente a estas duas personalidades. Os seus relatos precisos e imagens transportam-nos a 1927.

Em tempo sem televisão são estes textos, agora armazenados em arquivos e compilados em várias obras, que nos permitem “ver” que aquele que para sempre será o primeiro camisola amarela da Volta, Quirino de Oliveira, tinha “asas nos pés e a robustez física de um atleta completo”. Embora em texto biográfico, de outro autor, também percebemos que o herói da multidão era o famoso José Bento Pessoa. Repare-se: “o nome do jovem figueirense anda na boca de toda a gente. É um belo homem e isso amplia ainda a sua rápida popularidade, pois o apoio feminino jamais lhe faltará”. O aspecto ajudaria a provocar “inconsoláveis paixões”, mas não nos esqueçamos que também de vitórias era feito. Dominava então as competições nacionais e algumas internacionais.

Mais famoso, após a Volta e durante a Volta, só Augusto dos Santos, o “Coxo dos Pneus”, valente que terminou a Volta a Portugal de 1927 apesar de não ter uma perna. O Diário de Notícias seguiu atentamente a sua prova, fazendo dele uma figura popular de que os leitores admiravam.

O esforço heróico dos ciclistas era relatado, como já poucos conseguem, ou por falta de tempo e espaço, ou por falta de capacidade: “O aspecto dos ciclistas e automobilistas à chegada a qualquer parte é, na verdade, arrepiante pela porcaria que cada um traz por si! Há rostos irreconhecíveis. A máscara de poeira nada tem de cómica. É trágica de repelência!”.

A organização, num esforço acima da média, também era notada e salientada. Com tantas dificuldades, qualquer pormenor organizativo era valorizado. Em Almodôvar dizia-se “Excelente serviço. Cervejas, refrescos, águas minerais, sanduíches de paio aos montões”, num texto menos poético, mas vorazmente eficaz.

Se o valor descritivo mudou, algumas coisas permanecem. À partida, o concorrente Diário de Lisboa assinalava com desdém “uma prova desportiva de violência”. O valor publicitário já existia. Os repórteres seguiam num “esplêndido carro Dodge” que usava “gasolina e óleos Shell” e os desportistas e demais público a quem era distribuído alimentavam-se com o “poderoso reconstituinte Ovomaltine”, o primeiro grande patrocinador da Volta.

Sem condições e por vezes sem estrada, sujeitos a perigos que hoje não imaginamos, Oldemiro César e Mário de Oliveira, mostram-nos a primeira Volta, ao longo de penosos 1.958 Km divididos por dezoito etapas. Sem eles a prova não teria o sucesso que teve e tem. Neles, sem discriminações, se personificam todos os jornalistas e profissionais da comunicação que fazem parte da história da Volta.
Luís Gonçalves

1 comentário a “A VOLTA A PORTUGAL DE OLDEMIRO CÉSAR, MANUEL DE OLIVEIRA E TANTOS OUTROS”

  1. Muito bom.
    Luís Gonçalves, e que tal pensar em escrever-se a História da Volta? Há matéria para ser um grande livro!

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