O PESO DA VOLTA A PORTUGAL

Os últimos dias têm sido animados no ciclismo português. Após um período demasiadamente longo sem competição profissional interna, algo a que um país periférico como Portugal não se pode dar ao luxo, as bicicletas regressaram à estrada, para animar os adeptos.

Depois de um início de época a todo o gás, com a inerente visibilidade conferida à modalidade, o ciclismo profissional português quase pareceu ter vivido um segundo defeso. Não fossem algumas participações nacionais a nível externo e seria mesmo um segundo defeso.

Mas mesmo neste nível convinha acautelar o calendário interno, já que, temos um único vizinho, a Espanha (que também já passou melhores dias) e qualquer deslocação mais longínqua é quase insuportável para a generalidade das equipas continentais portuguesas. Não estamos na Holanda onde, com relativa facilidade, qualquer equipa continental, se desloca à Bélgica, à França, à Alemanha, à Suiça ou até à Itália.

Obviamente que para a o público em geral o calendário português é a Volta a Portugal. A Volta tem esta dualidade de secar os feitos dos ciclistas ao longo de todo o ano competitivo e ao mesmo tempo ser a principal ignição da modalidade no nosso país. Com este ou outro perfil, com estas ou outras equipas, vale bem mais o segundo ponto da questão. A Volta, quer se queira ou não, é, historicamente, a principal fonte de ignição do ciclismo português. Uma ignição económica, mediática, de cultura popular e de especial carinho pelo maior evento desportivo, desde sempre, do Verão português.

Não será por acaso que, ao longo dos tempos, alguns ciclistas portugueses com carreiras recheadas de bons resultados pelo estrangeiro, regressam a Portugal na tentativa de uma vitória na Volta. Será a cereja no topo do bolo e o reconhecimento definitivo do povo português, que imediatamente indica o nome dos vencedores da Volta a Portugal, mas não consegue nomear o vencedor da Volta ao Algarve, por exemplo.

Pese embora isto, há já alguns jovens ciclistas portugueses que dão o “salto” sem nunca terem feito uma Volta a Portugal. Mas também não é raro, darem o “salto” e terem que regressar aos braços das equipas portuguesas e ás estradas do país. Pelo caminho, alguns estrangeiros, sobretudo espanhóis, vão aproveitando a atenção dos fãs da Volta a Portugal.

Se há coisa que estes últimos resultados nos indicam é que a renovação de gerações no ciclismo português, parece estar assegurada, para espanto de alguns, com relevância dentro de Portugal. Bastará, como se fosse fácil, sustentar essa renovação. Todas as competições, mas especialmente uma boa Volta a Portugal têm um papel decisivo nessa sustentabilidade.

Sustentabilidade que também deve ser promovida pelas equipas, sobretudo de clube e continentais. Se, apesar de tudo, temos dados alguns passos à frente, não deveríamos agora caminhar de novo para trás. É naturalmente necessário dar a mão aos jovens, na medida certa e sem exploração do seu esforço. Mas também convém não se esquecer que qualquer actividade profissional carece de experiência e de tradição.
Luís Gonçalves