A VOLTA À CATALUNHA E OS TREPADORES

A Volta à Catalunha, uma das competições mais antigas do mundo que ainda se realiza, contando com quase cem edições, e já tendo celebrado o centenário em 2011, sendo inevitavelmente uma das mais apetecíveis e importantes provas do calendário velocipédico, tem uma lista de vencedores invejável (incluindo Gustavo Veloso), ao nível de qualquer grande volta.

Sem recuar muito, encontramos Anquetil, Merckx, Ocaña, Gimondi, Moser, Thévenet, Indurain, Beloki, Heras, Valverde, Rodriguez ou Quintana, todos com características de bons trepadores. Na esmagadora maioria das edições, as grandes subidas dos Pirinéus fazem parte da competição e, mesmo o território da Catalunha é normalmente acidentado, sendo preciso alguma imaginação para construir etapas para disputa ao sprint.

Nesses trepadores surgem vitórias de Laudelino Cubino, Claudio Chiapucci e Fernando Escartin. Nomes um pouco à margem das grandes figuras reconhecidas por todos, mas de uma importância decisiva no ciclismo, mesmo nas grandes Voltas.

Se há pouco tempo falávamos de Contador, como um dos únicos restantes do verdadeiro ciclismo de ataque, por exemplo Escartin, não deixava os seus créditos por mãos alheias. Fez segundo em duas Vueltas, terceiro num Tour (o primeiro de Armstrong) e, se nunca chegou à vitória (no Giro também fez top-ten) não deixava de ser decisivo para sabermos quem poderia ganhar.

Podiam não ser favoritos mas, sobretudo nas montanhas não se lhes podia dar muito espaço. Com os seus ataques, em pouco tempo destruiam as tácticas das outras equipas, sobretudo dos líderes, e dinamitavam pelotões. Ataques ferozes, um pouco loucos, em que não olhavam para trás, ao fim de alguns metros de subida.

Já não existem ciclistas destes, sobretudo no Tour, em que tudo se torna demasiadamente matemático. Até o irreverente Fabio Aru já parece ter percebido isso. Os poucos que vão aparecendo são imediatamente absorvidos pelas grandes equipas como a Movistar ou a Sky, trabalhando exclusivamente para o chefe de fila. Os directores desportivos destas equipas sabem bem porquê.

Na Volta à Catalunha, ainda se dá alguma liberdade a este tipo de ciclistas. A Vuelta, mas sobretudo o Giro, também nos trazem algumas surpresas. Como ciclismo, o Tour é cada vez mais desinteressante. Valerá sempre pela estrondosa dimensão que tem e é aí que reside o muito interesse.

Em altura de “defeso” competitivo profissional em Portugal, a bem do ciclismo, esperemos que esta Volta à Catalunha nos traga um Escartín, ou pelo menos uma boa luta entre Froome e Contador, com Valverde sempre em lista de espera.
Luís Gonçalves

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