A CIRCULAÇÃO DE BICICLETAS NA ESTRADA

Se há algo que nos tem chamado a atenção nos últimos anos, é o elevado número de acidentes com bicicletas em circulação na estrada, alguns, infelizmente, mortais. É certo que também aumentou o número de condutores e especialmente de utilizadores da bicicleta, mas não deixa de ser uma estatística preocupante e que toca a todos, quer aos que andam por lazer, quer aos que precisam de treinar diariamente para competir.

Muito se tem falado dos direitos dos ciclistas após a mais recente revisão do Código da Estrada e, cada vez que surge uma notícia sobre um acidente com bicicletas existe no imediato um confronto de ideias.

Desse confronto, o que se nota, é que tanto automobilistas, como ciclistas, na sua grande maioria estão desfasados do que diz o Código e, no essencial, desprovidos de bom senso, entrando numa guerra “clubística” cega, com argumentos ao nível da pré-escola, incluindo os representantes do Automóvel Clube de Portugal (Note-se: se sou fã nº 1 de ciclismo, também sou fã nº 2 de automobilismo).

Vemos muitas vezes os automobilistas falar da circulação fora das ciclovias. Na maior parte dos casos são vias onde se circula a pé, de patins, de skate, onde passeiam crianças, onde circula gente muito devagar e onde não devemos misturar quem usa a bicicleta não raras vezes mais rápido do que qualquer veículo a motor. A norma, para além de tentar equiparar a circulação de veículos na estrada (até porque grande parte do país não tem ciclovias…), no fundo e de forma razoável, tenta separar o “trigo do joio” evitando problemas. E algumas ciclovias não são mais que um risco, mal feito, na estrada.

Também se fala muito da circulação a par que pode ser feita desde que não atrapalhe o trânsito (anotem os ciclistas). E o que é atrapalhar o trânsito? perguntem aos deputados na Assembleia da Republica!

Para a maioria dos automobilistas, circular fora das ciclovias ou a par, ainda é proibido, os mesmos que entenderão que parar na berma da auto estrada para falar ao telemóvel é seguro, recomendável e não constitui contra ordenação.

Fala-se muito destas duas nuances e do seguro (já lá iremos), mas muito pouco de uma medida útil, que ajuda os ciclistas e sobretudo os automobilistas: a permissão de circular na berma, até então proibida. Essa, para os automobilistas, já era uma garantia.

Percebe-se mal, de parte a parte, a entrada, circulação e saída de uma rotunda. Acho que até o legislador percebeu mal já que “quase” equipara a circulação de uma bicicleta numa rotunda a um veículo pesado. Um camião e uma bicicleta. Nada mais idêntico.

Num país que se diz na vanguarda do ambientalismo, quanto ao seguro, e à sua obrigatoriedade, vamos obrigar alguém que vai três vezes por ano à praia de bicicleta a fazer um seguro? E o miúdo que vai para a escola de bicicleta, como sempre sucedeu? Já sei… são os pais, e ele, com 11 anos, fica como condutor habitual do veículo! Não se preocupem os automobilistas. Já existem mecanismos noutras normas legais que prevêem estas situações. O resultado final é idêntico.

Percebem-se os interesses subjacentes à ideia, mas nos tempos que correm, os utilizadores habituais da bicicleta, têm quase todos seguro, ora por competirem, ora pelo ciclismo de lazer da FPC ou da FPCUB, ora por seguros pessoais. Estatisticamente e proporcionalmente, apesar de não ser obrigatório, até devem bater aos pontos a circulação de veículos a motor, onde continua a ser condenada imensa gente por condução sem habilitação legal para conduzir e sem o tal seguro obrigatório.

Um metro e meio na ultrapassagem de ciclistas e peões (e isto também vale para os ciclistas na ultrapassagem de outros ciclistas, convém não esquecer). Na maioria das ultrapassagens, sabemos, é miragem.

Capacetes, confesso que sou a favor do uso obrigatório. Já sei que estraga o estilo do penteado, mas protege a cabeça.

Obviamente que muitos ciclistas também têm que mudar comportamentos. Mas até aqui sucede o inevitável. Quem se porta mal num veículo, por tendência, porta-se mal em todos aqueles que utiliza.

Diz-se muitas vezes que os ciclistas (peões, ou motociclistas) têm que ter muito mais cuidado do que qualquer outro condutor. Em Portugal, e nos países latinos, é verdade, mas não deixa de subverter o sistema porque quem tem a maior “arma” na mão, diz qualquer bom manual de boa educação, sensibilidade e bom senso, é que terá que ter mais prudência. A mesma prudência que qualquer automobilista que despreze a circulação de bicicletas ou peões na estrada, exige, de um camionista que lhe pode passar o pópó (e a cabeça) a ferro… já dá que pensar!
Luís Gonçalves