” É cada vez mais difícil ser um bom jornalista”

Durante o mês de Fevereiro pareceu viver-se pelo nosso território uma espécie de Volta a Portugal, desta feita, essencialmente a Sul e com outros protagonistas.

Os cinco dias da Algarvia, quase juntos aos mesmos cinco dias da Alentejana, proporcionaram-nos dez dias quase ininterruptos de ciclismo, um pouco à semelhança dos onze dias, também ligeiramente interrompidos da Volta a Portugal.

Apesar da semelhança de dias e de boas organizações não deixam todas de ter características diferentes. Umas mais internacionais, conforme comprova o pelotão presente, outras para consumo quase exclusivamente interno. Umas mais equilibradas no percurso, outras mais monótonas no percurso.
A junção do Algarve ao Alentejo trouxe um novo interesse internacional ao Alentejo. Ficaram algumas boas equipas mas, porventura, não as esperadas. Do Worldtour, apenas, a Movistar que, apesar do apenas, não deixa de ser a maior de todas. Notava-se que o pelotão tinha qualidade mas para potenciar ainda mais essa qualidade, a mantê-la, talvez seja necessário renovar um pouco o percurso da prova. Não sendo fácil, bem sei, mas bastaria, porque por tendência alteraria a forma de correr das equipas, que a etapa mais dura estivesse colocada, por exemplo, no penúltimo dia. Também no Alentejo existem outras dificuldades orográficas em vários locais, alguns próximos, das localidades de chegada. Mas também se sabe que os políticos querem as metas no centro. É uma questão de negócio, que pode trazer mais-valias à competição em si. De outra forma, depois de Barbero resistir à primeira etapa, integrado numa bem oleada Movistar, é difícil contrariar o seu favoritismo.

Ao falar destas provas não podemos esquecer, durante estes dias, o tratamento que lhes foi dado pela comunicação social. Se do Algarve nos chegaram boas novas de exportação da prova, esperemos de pedra e cal, e uma esforçada transmissão interna da TVI que valeu apenas pela concorrência à RTP pelo produto ciclismo, também não podemos esquecer, nomeadamente, o pouco destaque, sobretudo pela imprensa, dado à vitória de Amaro Antunes no Malhão, em representação de uma equipa nacional, batendo-se com algumas das melhores do mundo. Aliás, no geral, as equipas portuguesas não defraudaram expectativas aos verdadeiros adeptos nacionais.

Pelo Alentejo, aquando da primeira etapa, que terminou com vitória do “sportinguista” Rinaldo Nocentini, alguns jornais pareciam mais preocupados em realçar o novo patrocinador da equipa de Rui Costa, associando-o, em letras garrafais, ao nome do Benfica que, por ora, todos sabemos, não tem nada a ver com o ciclismo. Percebe-se tudo, mas é triste ver jornalistas deixarem de ser jornalistas e passarem a ser comerciais. É para isso a liberdade de imprensa.

Não se tratará de liberdade mas, dada a hora tardia, de libertinagem, a atitude da RTP em relação aos resumos alargados da Volta ao Alentejo. Pese embora as reportagens no telejornal, e os resumos, estarem bem construídos como é habitual por quem os fez, é uma falta de respeito para com um produto que a RTP tem há anos, de forma rentável (sobretudo com a Volta a Portugal), transmitir as imagens madrugada dentro na RTP3. Num dos dias ainda se deram ao luxo de retransmitir a escrutinadíssima entrevista a Cavaco Silva antes do resumo, aumentando ainda mais o adiantar da já tardia hora, num dia da semana.

Para outros jornais, o ciclismo parece tratar-se de uma questão feudal, própria da Idade Média. Se a prova é nossa, divulgue-se tudo e mais alguma coisa. Se não é, faça-se o mínimo, ou menos que o mínimo. A mim parece-me mais útil vender o produto o ano inteiro, mesmo que, obviamente, com destaques diferentes. Nalguns casos também é importante dizer que Pinto da Costa namora no Algarve. Não foi ver a Volta ao Algarve, onde o W52-FCPorto, ganhou uma etapa… foi namorar! Compreende-se, já não vai para novo. É uma notícia do maior interesse. Tão importante como saber a cor das cuecas que o Mitroglou usou no treino.

Queixa-se cada vez mais a comunicação social tradicional do assalto de protagonismo que têm tido blogs, sites e demais ferramentas da internet. Mas o que é certo é que são estes, cada um à sua maneira, que tornam mais acessível a verdadeira informação e opinião sobre alguns temas, nomeadamente, o ciclismo. Aqui, sem jornalistas condicionados, apenas cidadãos, a liberdade de imprensa, ainda vai funcionando. Por outros lados já está abusada, apesar dos abusadores dizerem que não, o que é natural. É cada vez mais difícil ser um bom jornalista.
Luís Gonçalves

1 comentário a “” É cada vez mais difícil ser um bom jornalista””

  1. Excelente artigo. O melhor que li até hoje neste espaço. Isto sim é fazer jornalismo. Isto sim é a independência jornalística e crítica construtiva. Isto sim é lutar pela ética e pelos direitos de quem tem o dever de ser informado. A comunicação social em Portugal é constituída por um exército de mercenários capazes de vender a alma ao “diabo” por um lugar nos quadros de qualquer jornal ou canal de tv. Parabéns Luís Gonçalves.

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