O VALOR DO CICLISTA PORTUGUÊS E AS SELECÇÕES

 

Obviamente que o valor do ciclista nacional, há já largos anos, é indiscutível. A comprová-lo estão os numerosos sucessos do ciclismo português em quase todas as grandes provas do mundo, protagonizado por atletas e equipas que, como se sabe, não estão integrados no núcleo tradicionalmente central do ciclismo, em países como a Bélgica, a França, a Holanda, a Itália ou a Espanha, o que torna a tarefa do sucesso mais difícil.

Ora, se a exposição internacional, de certa forma, mais ou menos abrangente, sempre foi profícua, a questão que se coloca agora é a do “consumo interno”, questão premente sobretudo nos últimos anos.

Os resultados dos últimos tempos, referindo-se a vitória colectiva da RP-Boavista na Route du Sud, batendo equipas do Worldtour, colocando, na altura, o português Frederico Figueiredo num top-ten, onde “só” estavam Alberto Contador e Nairo Quintana; a fantástica exibição de Amaro Antunes (então na La-Antarte) na Volta ao Algarve o ano passado e já este ano batendo-se com os melhores ciclistas do mundo na Volta a Valência (fez terceiro numa etapa em que todo o top-ten é Worldtour), bem como o colega de equipa Samuel Caldeira que apareceu na cara dos sprints; ou o bater de pé que Joni Brandão fez o ano passado ao enorme Alejandro Valverde; ou a sofrida vitória de Rui Vinhas na Volta a Portugal, onde não têm ganho muitos portugueses. Tudo isto, note-se, em competições internacionais que se disputam em Portugal e, não menos importante, também além fronteiras.

Nenhum destes ciclistas, e outros que poderíamos mencionar, esteve recentemente na selecção nacional. Porque não ter convocado, a seu tempo, Rui Vinhas ou Amaro Antunes para o Campeonato da Europa, realizado não muito depois da Volta. Mais do que o físico ou o percurso, a moral dá reais incentivos aos desportistas.

Justifica-se muito com a falta de experiência internacional, ou a falta de provas de nível onde participem equipas portuguesas. Elas aí estão, com resultados, de há cerca de três anos a esta parte, nomeadamente fora de portas.

À conta dessa suposta experiência internacional assiste-se à saída, cada vez mais jovem, de ciclistas, alguns integrados em bons projectos internacionais e com margem de futuro, mas outros, a maioria, integrados em projectos de construção duvidosa. Os resultados da prova de abertura, demonstram que há potencial evolutivo nas equipas portuguesas. Ou se troca por melhor, ou convém ficar por cá e, nessa permanência, as selecções e a Federação terão uma palavra importante a dizer, desde que também olhem para dentro, em todos os escalões e para todas as equipas.

A saída apressada para fora pode ser fatal. Por exemplo, com menos sorte, não teríamos agora Rafael Reis e Amaro Antunes. O que perderíamos, se não fossem as equipas portuguesas…

Para além disso, sabe-se, que qualquer selecção é um factor de promoção. Não é qualquer um que pode ir a uma selecção. Mau era! Mas, em Portugal, há alguns bons exemplos de ciclistas que têm todo o mérito para lá estar e também, porque é preciso, se promoverem, no fundo promover o ciclismo português. Não é preciso serem sempre os mesmos em todas as competições. No caso de uns já passou o seu “tempo” e outros, porventura, até deveriam ser punidos. As convocatórias das selecções (todas!) parecem uma check-list.
Luís Gonçalves