O REGRESSO DOS CICLISTAS SUSPENSOS À COMPETIÇÃO

Gera sempre alguma desconfiança ou, por vezes, sentimentos opostos radicalizados, totalmente contra ou a favor, o regresso de ciclistas suspensos, por violação de normas anti-dopagem, à competição (ou qualquer outro atleta, mas vejamos o ciclismo).

Mais do que qualquer outro agente da modalidade, que também pode ser suspenso por critérios idênticos, é no ciclista que se centram a maioria das atenções. Falamos de suspensões como pena final aplicada, e não de suspensões preventivas, que podem não terminar com a aplicação da pena efectiva.

A hipótese de aplicação de penas de suspensão é vasta, em tempo, e em critérios que levam à aplicação dessa medida de tempo (os anos de suspensão, por exemplo). Os anos efectivamente aplicados, também determinam circunstâncias diferentes no cumprimento da pena. Levianamente, abandonemos este pormenores que seriam maçadores.

Tem-se normalmente a noção que o ciclista suspenso (por três anos, nomeadamente) está pacificamente em casa à espera do regresso à competição, se o pretender. Ora, para além das sanções acessórias à suspensão a que estará sujeito, como a perda dos resultados desportivos, perdas contratuais, da vergonha social, sempre existente, o praticante desportivo, mantendo intenção de regressar à competição, durante todo o período de suspensão terá que estar disponível para realização de controlos de dopagem, obviamente, fora de competição. São ainda aplicadas sanções a quem está integrado nos programas de alto rendimento que podem, em segunda infracção, levar à exclusão definitiva.

Nunca é bom ter qualquer tipo de sanção. Significa que fizemos algo de mal. Mas o sistema, qualquer sistema (até o criminal) está orientado para a reabilitação, pelo menos, nas primeiras infracções. Durante as suspensões superiores a quatro anos, pode, ao fim desse tempo, o atleta participar em determinadas competições, de modalidades diferentes daquela onde se verificou a infracção, ou até na mesma modalidade, em eventos de reabilitação autorizados, no nosso caso, pela Adop. Isto é demonstrativo da intenção de nova integração competitiva na modalidade.

Muitas vezes, mais do que qualquer suspensão ou sanção, a maior pena é o regresso e o estigma que sempre fica. No entanto, deveremos sempre dar o benefício da dúvida a quem regressa. O período de suspensão para além de, como vimos, ser controlado, deverá servir sobretudo de reflexão ao erro e de ponderação de bom aproveitamento da nova hipótese, que poderá ser, com elevado grau de probabilidade, a derradeira.

Embora me custe mais a perceber o momento da dopagem, por exemplo, no escalão de Masters, seremos todos obrigados a acreditar nessa reflexão do erro, doloso ou negligente, e que pode até consistir numa falha ao controlo ou não cumprimento de um procedimento. De outra forma não teríamos Contador a animar etapas, Joaquim Agostinho em pódios no Tour, nem Rui Costa campeão do mundo.
Luís Gonçalves