MOMENTOS DO ANO NO CICLISMO PORTUGUÊS

Na aproximação ao final do ano 2016, quando, internacionalmente, a corrida (a pé…) de Froome no Tour seca todos os outros momentos do ano, tal é a evidência das imagens e do momento que perdurará nos anais do ciclismo bem para lá de 2016, convém recordar, numa visão pessoal, os momentos do ano no ciclismo português.

Numa escolha de três momentos, começando pelo princípio, inevitavelmente há que destacar o regresso de dois grandes clubes portugueses às lides velocipédicas. FCPorto e Sporting CP, ao fim de cerca de 30 anos de ausência, regressaram às estradas de Portugal. A luta entre os emblemas começou bem antes da animação da competição, com avanços e recuos, algumas provocações e contratações sonantes.

Embora integrados em projectos já existentes, algo que deveria ser diferente, deram uma nova cor à modalidade e ao pelotão nacional. Por vezes, a comunicação social, abusou destas duas cores. Era expectável (eu próprio o faço neste texto!), mas convém relembrar que o pelotão nacional é constituído por mais equipas, também elas, com bons e nalguns casos, melhores, resultados.

Entre os dois, o FCPorto parece ter ganho este primeiro round. Espera-se, no entanto, um Sporting muito mais competitivo na próxima época, haja estabilidade interna no clube.

Quanto ao segundo momento, destaco a vitória do Rui Vinhas na Volta a Portugal. Um sucesso inesperado, de alguém que estaria talhado apenas para “trabalhar”, mas que soube agarrar muito bem a oportunidade, ou o desleixe de alguns.

A vitória, mesmo podendo ser única, é merecida e vem demonstrar que no ciclismo o trabalho e a humildade compensam, sugerindo-se que a qualidade (porque também é preciso tê-la) está, às vezes, bem mais perto do que pensamos. É uma boa mensagem para todos aqueles a quem por vezes, com certo gozo, chamamos de aguadeiros. Deve-se relembrar que mesmo o triplo vencedor do Tour, Chris Froome, já foi, também ele, de certa forma e durante uns anos, aguadeiro, o que, em pequenos pormenores de corrida, no Tour, tem feito algumas diferenças para Quintana, que nunca o foi.

Para terceiro momento, obviamente, a vitória do Tiago Ferreira no campeonato do mundo de XCM, demonstrando que a preserverança, sobretudo pessoal, algum dia há-de dar os seus frutos, não para todos, está claro, mas para alguns eleitos. Não podemos contudo deixar de reparar que, em ano de distribuição de brindes e comendas pelo desporto português, o Tiago Ferreira continua sem a sua justa homenagem, quanto mais não seja porque peca ou pecará sempre por tardia.

Pode-se dizer que o mais importante está conquistado, mas um afago ao ego, no momento certo, faz sempre bem ao atleta e à modalidade. Competiria às estruturas governativas do ciclismo nacional mais interesse, como o que foi demonstrado, na altura certa, pela Federação de Atletismo, nomeadamente.

Uns concordarão na íntegra com esta opinião, outros parcialmente, uns discordarão totalmente e com toda a certeza apontarão outros momentos, dependendo sempre da visão que cada um tem da modalidade ou, nalguns casos, do cargo que ocupa.
Luís Gonçalves