AFINAL, QUEM MANDA NO CICLISMO?

No ciclismo, vive-se um período de intensa disputa entre a UCI e as entidades organizadoras de provas, no essencial, a ASO.

Um dos últimos episódios, é protagonizado pelo número de ciclistas por equipa e pelo número de equipas que, de futuro, estarão presentes nomeadamente no Tour, apelando (impondo!) a ASO a uma redução de efectivos por equipa.

Perguntam muitos seguidores do ciclismo, cada vez mais, afinal, quem manda na modalidade e, se calhar não menos relevante, quem manda na Volta a França.

Ora, resumidamente, o Tour foi apadrinhado pelo jornal L’Auto, viveu agruras políticas durante os confrontos mundiais, sobretudo no segundo (poupa-se, no texto, o enquadramento e acontecimentos históricos), estiveram depois os direitos na propriedade do Estado francês, passaram mais tarde para o recém fundado jornal L’Équipe, posteriormente integrado (como hoje) no Grupo Amaury, de que faz parte a ASO e, desta, a Sociedade Comercial do Tour.

Ou seja, desde que foi idealizado, em 1903, para aumentar o número de venda de jornais e de bicicletas, que o Tour é um projecto marcadamente comercial, sem grande, ou nenhuma influência que não fosse regulamentar, e à posteriori, das Federações ou da UCI.

Cresceu e dinamizou-se sozinho, como qualquer empresa realmente produtiva, apenas necessitando da alçada regulamentar e disciplinar exterior e, nos tempos que correm, tal é a dimensão dos milhões e da influência do Tour, bem associada a outras provas posteriormente adquiridas, que já nem a essa quer prestar contas podendo, com facilidade, formar um regulamento próprio, com meios próprios (todos aqueles em que se possa pensar, porque, para todos os agentes do ciclismo a este nível, isto, é um negócio!) que permitam continuar com o espectáculo.

A ASO, sozinha, na alçada privada (ao contrário da nossa Volta), detém algumas das mais importantes provas do mundo. Com naturalidade faria só ela, um calendário dos mais apetecidos com, por exemplo, Tour, Vuelta, Liège-Bastogne-Liège, Flèche-Wallone, Dauphiné, Paris-Roubaix…

Quererá a UCI afrontar este projecto comercial? Afrontaria um grupo que, designadamente, registando a marca, se deu ao luxo de mudar o maior rali do mundo (Dakar) de continente. Seria bem menos provável no ciclismo, sobretudo pelo seu tradicionalismo (trocamos facilmente o deserto do Sahara pelo do Atacama, mas não o Tourmalet por outra montanha qualquer da América!), mas não está fora do alcance da ASO, enquanto este tipo de mercado subsistir, ter um calendário próprio, numa espécie de Liga, que até poderia incluir outras provas, de outras organizações, e a UCI sabe isso.
Luís Gonçalves