DONALD TRUMP, OS AMERICANOS E OS LATINOS

No momento em que os americanos se preparam para eleger, ou pelo menos tentar, o seu próximo presidente, faz-se uma apreciação sobre dois momentos do ciclismo americano (dos EUA).

O primeiro, porventura o mais interessante, até porque o actual candidato republicano tem influência directa, chama-se Tour de Trump. Para quem não estiver familiarizado com o acontecimento, deve-se dizer que o Tour de Trump foi uma prova de ciclismo, nos EUA, idealizada e patrocinada por Donald Trump. A intenção, ambiciosa, como sempre, era a de a médio prazo, equiparar o Tour de Trump, ao Tour de France! Escusado será dizer que, como em muitas coisas na vida de Donald Trump, o Tour de Trump só teve duas edições (1989 e 1990). Foi depois substituído pelo Tour Dupont, que terminaria também em meados de 1990, não sem antes acrescentar à lista de vencedores, Greg Lemond e Lance Armstrong.

Embora fosse mais uma ideia megalómana de Donald Trump, esta prova, não deixou de ser uma das sementes para o que são hoje as boas e visíveis organizações americanas.

Dessas, obviamente que se destaca a Volta à Califórnia, o estado americano que quase todos sonham visitar, uma porta de entrada do turista para todo o país. Foi também nisso que pensou a organização da prova (os próprios o dizem) quando decidiu inscrevê-la no calendário WorldTour 2017, onde estão as competições que dão mais visibilidade.
Em resumo disse, já há uns tempos, Peter Stetina, sobre esta entrada: no ponto em que está o ciclismo americano não pode estar arredado do Worltour, daí todo o interesse em ter uma prova nesse calendário. É uma vitória para os fãs de ciclismo e para o ciclismo americano em geral.

Contudo, baseado no que ouve também da opinião pública (e não publicada!) lança algumas preocupações para a discussão. A entrada da Califórnia no Worltour pode ser um entrave ao desenvolvimento de projectos de equipas Continentais, que viam na projecção da prova uma hipótese de angariar patrocinadores o que, mais tarde ou mais cedo, pode vir a prejudicar o crescimento de jovens ciclistas ou a sua hipótese de “dar nas vistas”, porque deixam de poder competir nesse pelotão, ou porque deixa de existir sustentabilidade para as equipas (e os americanos, apesar de serem simples nos procedimentos, não se contentam com qualquer orçamento).

Stetina fala de um país que tem três equipas Worltour, duas continentais profissionais e uma dezena de equipa continentais com orçamentos invejáveis.

Mesmo assim os americanos aparecem-nos preocupados com a sustentabilidade. Parecem saber bem que, para nivelar as competições nacionais por alto, não podem, nesse caminho, descurar as equipas nacionais, mesmo que não sejam as mais representativas, e sobretudo a formação.

Obviamente que, nos EUA, quem é chamado a colaborar na tarefa da sustentabilidade são todos: Federação, organismos locais, organizadores, patrocinadores, Estado, ciclistas e equipas. Um comportamento muito diferente do “salve-se quem puder” latino, ou do “pode ser que corra bem”!

Enquanto o americano não quer ser, nunca, atropelado, o maior desejo do latino é um atropelamento na passadeira, com estilo, com razão, com baixa médica prolongada, com indemnização.
Luís Gonçalves