” Se estivesse aqui o Contador…”

Christopher Froome, britânico, é de novo o Rei de França, juntando-se a um restrito lote de triplos vencedores do Tour. A demonstração de superioridade surgiu em todos os terrenos e circunstâncias de corrida (até a correr a pé!). Enquanto Froome olhava para a frente, Quintana olhava demasiadas vezes para trás à espera do que um verdadeiro líder, às vezes, não pode esperar, tendo de ser o próprio a tomar as iniciativas.

Pode-se dizer, com toda a justiça, que o séquito real de Froome (a Sky) é meia Volta a França. Nunca devemos esquecer-nos que o ciclismo é cada vez mais um desporto de equipa, mas qualquer boa equipa também precisa de um verdadeiro “matador”, e Froome, não tem falhado.

Apesar de ter pedalado como os outros, Quintana não mereceu o pódio. Romain Bardet estava lá com toda a justiça. Fez por isso. Deveria ter sido acompanhado por Porte, Yates, Valverde (sim, o Valverde que foi terceiro no Giro) ou até Bauke Mollema. Por vezes, Quintana, não parece colombiano e sul americano. Não se ri, é fechado, faz uns arranques (não ataques) e mesmo assim ao fim de vinte metros já está a olhar para trás e ainda dá entrevistas com ideias completamente descabidas, por vezes ofensivas para os colegas de profissão. O sucesso no pelotão mede-se por vários factores e Quintana não tem feito muito por isso. Não podemos ser todos iguais, é certo, mas prefiro Esteban Chavez.

Fábio Aru, acabou por nos desiludir um pouco. Contudo, num ciclista com o seu espírito, às vezes é bom passar uma ligeira humilhação. No seu primeiro Tour foi bom ter visto que não estava na Vuelta, os ciclistas não são os mesmos, muito menos a constituição das equipas.

Já Peter Sagan encheu-nos o olho. Não há muito mais a dizer sobre este ciclista. Do estilo aos resultados tudo corre na perfeição para ele, para a equipa, patrocinadores e para o Ciclismo.

Não conseguiu o Graal dos sprinters, esse foi para Griepel, com a vitória nos Campos Elíseos mas Mark Cavendish voltou a ser o papa etapas do Tour. Ultrapassou Bernard Hinault e aproximou-se de um recorde de Eddy Merckx que parecia impossível de alcançar, deixando em suspenso cenas dos próximos capítulos.

Nelson Oliveira foi decisivo na vitória por equipas da Movistar. No Tour, ser terceiro num CR, sendo apenas superado por Doumolin e Froome, é obra.

Rui Costa não conseguiu a vitória de etapa que tanto quereria (ele e nós!). Esteve perto, no dia do triunfo de Doumolin, mas já não é o mesmo ciclista que apanhava os adversários desprevenidos. Ganhar etapas no Tour e sobretudo ser campeão do mundo é uma referência para todo o pelotão e quando se está em grupos com Cummings, Majka, Doumolin, Nibali, De Gendt, ou outros que também raramente falham, torna-se tudo cada vez mais difícil, sobretudo num Tour em que quatro equipas ganharam mais de metade das etapas.

A A.S.O. organizou mais um grande evento. Correu tudo, ou quase tudo, dentro da normalidade, o que é bom. Porém, a título de exemplo, não se pode tratar o ciclismo como o ténis, desporto em que os espectadores estão confortavelmente sentados e em que à mínima ameaça de pingos de chuva interrompem os jogos.

A imagem deste Tour, que se perpetuará ao longo de décadas, será a de Froome a correr no meio da multidão… verdadeiramente inesquecível!

Inesquecível é também a falta que faz Contador. A Tinkoff acabou por se sair muito bem, mas quem gosta de ver ciclismo, em diversas situações de corrida definitivamente que pensou: “se estivesse aqui o Contador…”
Luís Gonçalves