AS AUTARQUIAS E O CICLISMO

Se há coisa de que o ciclismo depende, sempre dependeu e dependerá em qualquer parte do mundo, é do poder autárquico e dos autarcas.

Não se pense que essa dependência é apenas monetária. Veja-se, por exemplo, algo fundamental em qualquer prova, de qualquer vertente e escalão, como o licenciamento da via pública para efeitos desportivos ou, em muitos casos, o próprio apoio logístico fornecido às organizações.

Nesta coisa dos autarcas já se sabe que alguns são mais “amigos” do ciclismo do que outros. Entre os “amigos” uns têm de facto uma paixão pela modalidade (alguns até praticantes ou ex-praticantes), outros vêm o ciclismo como uma forma acessível de publicitar o seu território, outros ainda apoiam a modalidade apenas por uma questão de imagem e os últimos apoiantes, direi eu, fazem-no por obrigação eleitoral, sobretudo em municípios onde existe muita gente ligada ao ciclismo e às bicicletas.

Com qualquer destas espécies, qualquer organizador de provas, ou agente do ciclismo, mesmo por vezes contra vontade, tem que manter as mais cordiais relações, residindo neste factor um critério fundamental para o sucesso de qualquer prova velocipédica.

Nos últimos anos temos assistido, de forma visível, a um diferente fenómeno. Na escassez de meios individuais de cada município, assiste-se a uma junção de vários municípios, casualmente, ou em comunidade já formada, apelando a uma região comum. O GP das Beiras e Serra da Estrela é exemplo disso, mas também o próximo GP do Dão, que reunirá alguns concelhos da região do Dão/Lafões. A título indicativo, a Volta ao Alentejo, tem tido o apoio sustentado na comunidade de municípios alentejanos.

Entre os autarcas, também é preciso dizer, que há os casuais, e os que fazem contratos plurianuias, desvirtuando de certa forma as competições que se tornam monótonas por serem sempre iguais e nos mesmos sítios, mas, com muita importância, mantendo a sua sustentabilidade e previsibilidade financeira.

Com este padrão, todos no ciclismo o sabem, basta mudar um autarca, mais apreciador de golfe ou de mini-golfe, para o que parecia ser uma autarquia na vanguarda do ciclismo deixar de o ser. Por isso, a busca de apoios, e de novas áreas deve ser constante.

Resta dizer, e seria injusto não o referir, o interesse que algumas associações de ciclismo demonstram em trabalhar com o poder local. Também deixo uma palavra especial ao município do Fundão que, no passado fim de semana, conseguiu, numa coincidência que julgo única, juntar os dois principais “pelotões” nacionais, na mesma localidade, com o fim da segunda etapa do GP das Beiras e a realização de mais uma prova da Taça de Portugal de Xco.
Luís Gonçalves